"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando... Falei, muitas vezes, como um palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria."

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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

1997 Dias seguintes ao primeiro

Eu sempre soube que não deveriamos esperar muito por algo. Fantasiar futuros acontecimentos pode contribuir muito para uma decepção geral. Será que um dia teremos a realidade superando nossos sonhos?
O tal dia seguinte depois do meu primeiro dia no colégio novo chegou. Dormi pouco a noite, ate as duas da manha já havia repassado meu próximo dialogo com o menino que não saia do meu pensamento, as três eu ja estava discutindo comigo mesmo, ou quem sabe com ele em meus pensamentos, nosso destino para as férias de Julho, pensando em Paris eu dormi. O som permaneceu ligado, acordei as seis e meia da manha com o despertador berrando, Rosa batendo no meu quarto e “Califórnia Dreamin – The mamas and the papas”, parte da trilha sonora de Forest Gump, um bom CD, musica irritante pela manha na verdade, mas isso é apenas um detalhe insignificante que lembrei. Levantei e abri a cortina como de costume. Quinze minutos de banho, cinco para trocar de roupa, não há muito o que escolher, na verdade nunca tive paciência para dedicar muito cuidado ao trato matinal, ainda mais para ir ao colégio, mesmo agora.
Passo alguns minutos sentado no quinto tijolo da escada em frente ao portão de entrada, ele não aparece, penso se ele já não esta na sala, dormindo, desenhando no caderno ainda em branco ou me esperando no mesmo lugar do dia anterior. Ele não esta na sala, sento em meu canto como no dia anterior, abro meu caderno e rabisco desenhos mal feitos. Uma hora se passa e desisto de contar com a presença do garoto.
O dia seguinte promete ser uma reprise do dia anterior, que um dia foi o “dia seguinte” que tanto esperei, ainda pensava naquele que jurei iria ser alguém especial em minha vida. Sigo meus instintos, encaro a vida, cansado de esperar por um reencontro, resolvo promove-lo.
Volto do colegio com meu primo, vou almoçar na casa dele, ouço noticias de Pedro ( meu outro primo que havia se mudado para Londres), vejo TV e arrumo uma desculpa qualquer para ir embora. Antes disso dou uma vasculhada na lista telefônica, procuro Paola Holscher, esse é o nome da mãe de Guilherme. Não tenho muito sucesso. Ligo então para Andrea, secretaria do meu pai, ela sempre consegue tudo que precisamos.

- Beguelli & Heiweck , Andre....
- Andréia sou eu.
Andrea é uma pessoa feliz e sempre demonstra sua empolgação ou “preguiça” após percebe com quem ira começar uma conversa. Ela parece empolgada.
-Luca! Tudo bem querido? Há quanto tempo.
- Nada mal. Preciso de um favor.
- Diga.
- Tem esse menino que estuda comigo, Guilherme Holscher..
- Filho da Paola?
- Por quê? Você a conhece?
- Eu e o mundo inteiro. Que tem ele?
- Preciso saber onde ele mora.
- Ligue e pergunta, pode funcionar.
- Jura?
- Mas você não tenha o telefone, se não já teria ligado.
- Exato.
- Vou ver se consigo alguma coisa, não deve ser difícil.
- Mas eu preciso para agora.
- Agora? Ótimo, vou ver se ela tem conta aqui no banco ai acesso o banco de dados e consigo algo para você.
- Ótimo. Estou aqui na tia Raquel.
- Já te ligo.

Vinte minutos depois Andrea telefona com dados em mãos. Aparentemente, depois de constar que o endereço do banco de dados do banco era da agencia de Paola e não da casa dela, Andrea teve a brilhante idéia de ligar no colégio e conseguir a informação ao invés de burlar as regras de política do banco e vasculhar por informações de nossos clientes. Com endereço em mãos, faço meu primo me levar ate lá, sei bem que isso vai me custar algo mais tarde.
Guilherme mora em um prédio nos Jardins, não muito longe de minha casa eu acho, minha noção de espaço não é muito boa para ser sincero.O porteiro me deixa entrar sem muitas perguntas. No lob do prédio, chão de mármore branco, não era um prédio antigo, a decoração e o elevador moderno dizem isso. Pergunto por Guilherme e o senhor de uniforme, nada muito simpático para falar a verdade, mostra-se ser um homem de poucas palavras. Uma senhora chega sorrindo, muito elegante, clássica bolsa Chanel preta e vai direto para o elevador que já esta no térreo. Sorrio para a dona e entro com ela no elevador. O porteiro mostrou-se querer se importar com minha “invasão”, mas creio que não viu muito perigo em minha figura e simplesmente ignorou minha presença.

- Nunca o vi por aqui, morador novo?
Pergunta a senhora de cabelos feitos.
- Não senhora, vim visitar um amigo.
- Décimo oitavo, o filhos dos Holscher? Muito simpático o garoto, estudam juntos?
- Sim estudamos.
Décimo primeiro andar, a porta se abre e mostra um grande vaso com plantas estranhas e coloridas no lob do apartamento da senhora do elevador.
- Tchau, foi um prazer.
- Tchau.

Com o elevador vazio me encaro no espelho, como acredito todo ser humano faz. Existe algo mais irritante que elevador sem espelho? A porta se abre e me deparo com um hall vazio, a não ser pela mandala desenhada no piso de mármore e uma porta de madeira trabalhada. Não há numeração. Toco campainha, uma jovem senhora, diria uma senhora de quarenta e poucos anos meio rechonchuda me atende.
- Pois não?
Ela mostra um grande sorriso e cheira a comida feita em casa.
- Oi!
Penso se realmente deveria estar ali.
- Oi?
Ela pensa “quem é você?” e “o que você quer?”
- O Guilherme está?

- Esta sim, no quarto. Provavelmente deve estar dormindo. Fique a vontade. Cansei de falar para ele sempre me avisar quando chamar um amigo, não gosto de ser pega de surpresa sabe, não tenho nem sequer um lanche preparado. Digamos que a tal senhora gosta de falar, não sabia a quem ela dirigia aquelas palavras, escutei calado.
- Não se preocupe, e ele não sabia que eu viria.
- Não sabia? Espero que seja amigo dele então. Pode seguir reto, é a ultima porta do corredor.
- Obrigado!
- Eu sou Maria, qualquer coisa é só chamar.
- Luca!

A porta esta fechada, tento uma batida tímida, nada. Imagino que ele realmente deve estar dormindo, abro por conta própria e entro. Por alguns minutos arrependo me minha iniciativa solidaria de vir vê-lo, mas não durou muito. Ele esta na cama, cuecas brancas, lençóis chumbo, posso ver suas costas, pele clara. Fico o olhando esperando que ele acorde, mas nem um músculo se move. Ele dorme de bruços. Olho pelo quarto tentando me familiarizar com o lugar, uma parte da parede perto a entrada do closet é coberta de recortes de revistas e fotos. Em uma delas ele esta ao lado de sua mãe na beira do Sena em Paris, tenho uma foto como essa, eu e minha mãe, imagino se um dia teremos uma: eu e ele.
Ando pelo quarto, me sinto bem ali. Quero acordá-lo mas algo me impede de tomar uma atitude, afinal mal o conheço. Sento na cadeira frente a uma escrivaninha de madeira.
“Acorda! Acorda! Acorda!” escrevo em um convite verde que esta na minha frente.

- O que você esta fazendo aqui?
Não me assusto, ainda estou de costas e penso se ele realmente sabe quem esta em seu quarto, fico feliz em ver que meu apelo funcionou.
- Você parecia mais simpático no outro dia.
- Eu sou simpático.
- Eu não me importo.
- Eu estava com febre.
- febre? Estava ou esta?
- Que eu estava eu estava se ainda estou não sei.
- Quer fazer alguma coisa?
- Não saio de casa por nada.
- Filme?
- E bolo de chocolate.
- Bolo de chocolate?
- Sou chocólatra.
- Eu não.
- Ótimo. Não tenho filmes.

Ele se levanta e vai ao banheiro. Eu olho suas fotos por mais alguns instantes. Escuto o chuveiro ligar, vou ao banheiro, sento-me na pia e começamos a falar. O tempo passou rapido, onze horas da noite minha mãe liga preocupada pois tinha descoberto que eu não estava na casa de minha tia. João me busca. O dia foi bom, calmo, me senti em paz. No proximo ele iria me pegar em casa para irmos para o colegio. Nunca chegamos a ver uma aula naquele dia. Andamos pela cidade. Fomos ao MASP, almocamos no Mercadao e tomamos sol na piscina da minha casa. Ele dormiu por la mesmo, seus pais estavam em Nova Iorque trabalhando. No resto da semana encaramos nossa obrigacao de estudantes. Meses se passaram sem eu notar. Em Julho fomos para apartamento de G. em NY. Acabamos a temporada em sua casa em Miame. Foi bom. Trinta dias descobrindo um pedaço do mundo juntos. Eventos interessantes aconteceram.