"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando... Falei, muitas vezes, como um palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria."

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  • Lendo - The Glass Castel by Jeannette Walls
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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Meninos x Meninas



Nunca neguei meu estado natural. Sejamos francos ser uma menininha deve dar um tanto bom de trabalho. Meninos são simples por natureza, ultimamente procuramos coisas para complicar nossas vidas, mas nada que implique obrigações fisiológicas, tudo não passa de uma corrida estética do novo milênio. É a tal coisa de metroxesualismo a la Beckham.
Deixando de lado as diferenças biológicas, o que mais me agrada em fazer parte desse universo é o seu funcionamento psicológico e social, como diriam as mulheres, o nosso “jeito”.
Meninas brigam. Meninos também. Mas há uma diferença sutil: brigas de mulheres são chatas e escandalosas, quando realmente a coisa fica física vira um show para a platéia, um show cômico convenhamos. Homens socam uns aos outros basicamente por um instinto natural: mostrar de alguma forma sua superioridade, mas há sempre um motivo que normalmente envolve alguma ofensa de caráter moral ou claro, mulheres, a quem discorde e caracterizam tudo como: motivos ridículos. Sim há muitos homens por ai sujando nossa imagem de meninos príncipes e sim, mulheres talvez não seja algo que valha apena uma briga. A quem estufe o peito por um olhar torto de um outro macho a sua fêmea, esses eu já digo que pertencem a uma fase de evolução do homem animal ao homem social, seja la qual for motivos de briga, para ambos os sexos uma coisa temos que encarar: homens ao menos sabem o que estão fazendo, mulheres na grande maioria, criam universos de uma realidade distorcida, e elas mesmas se pedem em suas razões e desarrazoes.
Meninas intrigam em busca da degradação de sua oponente, entenda oponente como quiser, aqui vale tudo queridos, amigas, conhecidas, inimigas, ou seja, mulheres em geral. Quem sempre começa, ou pelo menos na grande maioria das vezes, uma discussão de relação? Elas, acredito ser até mesmo uma necessidade natural . Claro encontramos homens por ai com cabeça de meninas, há sempre exceções, mas aqui estou tentando me prender à massa.
Cinco homens juntos em uma viagem dificilmente acabaram com rancor ou o que prefiro chamar de “preguiça” um do outro. Elas não, sempre chegaram com vários casos de desentendimentos infantis. Percebo que o sexo oposto ao meu tem algo muito semelhante com crianças, querem porque querem, fazem de algo mínimo estrondoso. Contudo não deixaram permanecer a pureza e a simplicidade de achar beleza e diversão nas pequenas coisas.
Outro fato interessante é que problemas de mulheres normalmente são com outras mulheres. Elas não se entendem. Creio que fundo sabem que é melhor atacar antes de serem atacadas. Apenas para elucidar não tenho nada contra as menininhas, pelo contrario, minha vasta cartela de amizades é formada por elas na sua grande maioria, uma verdadeira amizade de sexos opostos é algo fantástico. Mulheres se dão bem com homens que elas não tenham beijado na boca, e isso por um fato simples, por não ter medo de que outra vai tomar o lugar delas, cada um assume seu lugar e pronto, elas se transformam.
Acordei hoje pensando nisso, como é mais fácil e menos cansativo ter um Y em nosso cromossomo. Desde sempre foi. Antes quando os homens detinham maior controle e poder na sociedade. Hoje, mesmo elas tendo se afirmado no mundo como ser produtivo e independente e de igualdade intelectual, ainda são incapazes de alcançar o simples e doce prazer de viver descomplicadamente. Homens acreditam mais neles. Poucas mulheres se atreveriam a ir em uma festa sozinhas. Homens não, eles vão, e são felizes. Entendem? Vejo o dia que depois de tomado todos os postos que os homens já ocuparam nesse mundo as mulheres lutarão para entender o porque que nós não somos tão complicados (pior que na cabeça delas nos somos) mas quando a verdade vier a tona, se é que pode acontecer, o mundo será mais doce (e há quem diga, mais chato!).

(revisão de Patricia Benedetti,mesmo ela não concordando com algumas coisas e dizendo que sabe que eu tenho o sangue dos De La Vega e amo o mundo Maria do Bairro)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Casa nº11

(escritos, por Luca Beguelli e Guilherme Holscher)

Não devemos tentar prever nossas vidas e digo isso como uma afirmação sem nenhuma variável em jogo. Prever mesmo nunca iremos, já que para isso necessitaríamos de dons sobrenaturais e quanto a isso não tenho mais esperanças. Devemos sonhar que tudo pode ser diferente. Isso, sonhe, mas cuidado, não se iluda. Programar sua vida, seus momentos e aventuras, nos leva a um impasse um tanto quanto desagradável: primeiro a falta da surpresa e tudo ser como esperado, uma monotonia desenfreada de uma vida sem dramas, e mesmo se algo inesperado cruzar seu caminho para apimentar a coisa você irá se decepcionar pelo não acontecimento do programado e idealizado. Resta-nos preparar uma bebida e comprar cigarros, pois só nos restará curtir os sagrados e deliciosos minutos de uma doce melancolia. E depois do drama todo? Bem, muita coisa pode acontecer depois dias dramáticos e melancólicos.
Dificilmente acredito que existem regras absolutas, obvio que sabemos que não devemos roubar, matar, nem mesmos nós mesmos - princípios morais difundido pelo tempo - mas até mesmo isso pode chegar a ser posto em cheque dependendo da situação que encontramos. Não existe regra para o sucesso, para a infelicidade, como também não conheço a formula perfeita de como se portar em um velório, nada me deixa mais nervoso do que um velório, e quanto a festas nem ouso começar a falar. Cada vida é uma vida, cada mesa de jantar é cercada por pessoas diferentes, cada velório é de um morto e regras não passam de simples regras, ferramentas que nos são dadas para vencermos uma batalha social diária, mas cabe a cada pessoa como individuo autônomo e dono de uma personalidade especifica saber onde, quando e como usá-las. Não sei bem como cheguei ate aqui, não era bem o que queria dizer, porem me parece interessante, por mais ilógico que pareça para alguns, sei que faltam alguns pontos a serem discutidos no cenário “verdades universais” e “comportamento sociais”, mas acredito que isso será dito cedo ou tarde em alguma das próxima linhas que ousarei escrever aqui. Sim, aguardem "Clichês da vida", quão barato soa isso?
Voltando ao começo disso e tentando fazer com que tudo ao menos pareça fazer sentido, digo o seguinte: no final vamos chegar no mesmo ponto crucial que muito foi alarmado por ai: esqueça o passado, não se importe muito com o futuro e viva o agora, mas só percebi que iria falar disso a poucas linhas atrás quando, parece, encontrei uma linha de raciocínio lógico dentro de mim, portanto tentarei dizer de outra maneira: não programe muito sua vida, pode não valer a pena, dar muito trabalho e ficar melancólica se todo o programado não der certo, ou não, talvez o fracasso de seu planos seja o caminho para sua felicidade e você enxergará que não tinha idéia do que iria lhe fazer feliz, sei que quer ser feliz, ou assim espero prefiro acreditar, mas tal fracasso também pode ser frustrante e te levar a uma depressão. Enfim, deixaremos isso para depois. Enquanto isso, trace um plano B.


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Paris 2006

No começo era apenas uma casa, uma parte de um cenário diário que me foi submetido. Todos os dias eu passava ali após a aula, mas nada acontecia. Eu não esperava que algo acontecesse para a falar a verdade. A casa é linda, velha sim, meio rústica, diria até abandonada, mas bonita, clássica, eu gostava dela. O que me intrigava era o fato de nunca haver ninguém ali, nenhum barulho ou movimento, nada. O seu número era o 11, algo que eu notei sem querer ter notado, apenas notei e depois disso passei a notar sempre. Um dia tirei uma foto do nº11, era de bronze ao meu ver, velho, muito velho, o tipo de velho que parece contar uma historia, e contava. Os números foram levados por um casal de imigrantes russos que se apaixonaram ainda cedo em suas vidas e logo se prometeram um ao outro com o total apoio de ambas as famílias. Quando a família do noivo foi tida como desertora e traidora da pátria o noivado foi oficialmente rompido, porém segundo dizem, nada mudou para os pombos loiros. Eles continuaram a se encontrar as escondidas em um armazém abandonado na ultima rua depois da igreja, na casa de numero onze. Quando finalmente decidiram fugir do país levaram apenas roupas, o pouco dinheiro que haviam guardado para a ocasião, ela algumas jóias de família, e o numero onze, o cúmplice de suas noites de amor, como não o bastante há quem conte que fugiram no dia 11 de agosto, às onze horas da noite, mas nisso não acredito, quanto a resto, verdade ou não, prefiro acreditar.
Quanto aos polacos que um dia chegaram a cidade da luz não sei o que aconteceu, tal historia ouvi do dono do caffe da rua de traz, esquina com o Jardin du Luxemburg, um senhor de barba brancas que se recusava em falar inglês comigo quando meu Francês ainda era tido como um dialeto estranho para aquelas pessoas. Eu acendia um cigarro, ou tentava arduamente lutar contra o vento para conseguir tamanha façanha, quando minha maquina foi parar o chão. Eu fiquei nervoso, não desisto do cigarro, encarei a maquina no chão rezando no intimo para nada de mal a tivesse acontecido, sentei nos primeiros degraus da casa numero 11 e ali fiquei, eu e meu cigarro e minha maquina no chão. Uma brisa fria tomava conta de Paris naquele fim de tarde de outono, vi um jovem casal passar do outro lado da rua, ele a cobrindo do vento, ela segura em seus braços, quis tirar uma foto, mas estava sem minha maquina. Quando a olhei no chão percebo que ela não estava mais sozinha. Um pequeno par de pés estagnados a seu lado. All Stars vermelhos, uma mão, pequena e delicada, alcança meu brinquedo, arrependo naquele segundo por tê-la abandonado durante a queda. Encaro a figura de tênis vermelho e jeans sujo: um menino, praticamente uma criança, olhos castanhos, cabelos claros e lisos caindo em seu rosto. Ela examina o instrumento em suas mãos, me olha sem dizer uma palavra. Ele me fotografa, a Canon não parece algo estranho a ele, vejo que há uma familiaridade com o objeto, ele tira varias poses, eu continuo onde estou, 22 cliques e o filme acaba.

- Jean.
- Luca.
- Você mora ai? Na casa velha de numero 11?
- Não.
- Imaginei. Ninguém mora ai, é assombrada.
- Pelo casal russo?
- Que casal russo?
- Os que trouxeram esse numero 11.
- Não sei nada sobre isso.
- Como sabe que é assombrada?
- Não sei, imagino que seja, por qual outro motivo ninguém moraria aqui?
- Não faço a menos idéia.
- Fotografo?
- Eu? Não.
- Imaginei. Nenhum fotografo deixaria sua maquina jogada em uma sarjeta.
- você?
- Eu o que?
- É fotografo?
- Eu tenho onze anos, não posso ser nada ainda, sou um menino de onze anos que vai pra escola e tira fotos com velhas câmeras de meu avo.
- Devem ser boas fotos.
- Por quê?
- Por que não seriam?
- Por que seriam? Você nem me conhece.
- Talvez pelo All Star vermelho.
- Talvez. Quantos anos você tem?
- 25.
- Velho.
- Obrigado.
- Isso não foi um elogio, apenas um comentário.
- Bem, eu me sinto velho às vezes.
- Meu avô aos oitenta e sete anos não se sentia velho.
- Quem sabe ate lá eu rejuvenesça.
- Boa sorte então.
- Obrigado.
- Vou tirar fotos em uma feira de ambulantes em uma praça amanhã. Se quiser ir me encontre aqui ao meio dia.
- Você tem mesmo 11 anos?
- Faz alguma diferença?
- Creio que não.

O garoto saiu sem presa. Virou para trás uma única vez onde deu seu primeiro sorriso. Parece um menino bom, do tipo que não se encontra por ai. Pensei em Antonio e se um dia ele seria assim, despreocupado com a vida, ligado ao mundo. Senti saudades, volto para casa o mais rápido que posso. Minha criança brinca com almofadas e scarfs espalhadas pelo chão, como se mundo lá fora não houvesse. G. o observa entre uma pagina e outro de um livro empoeirado.

Um Segredo


Julho 1997

G. dormia na sala enquanto eu tentava ligar para minha mãe pela quinta vez. Estava quente na cidade, no dia anterior tínhamos feito uma pequena trip a Orlando e voltamos cheios e Plutos e Patetas que não iriam caber em nossas malas - fato que os bichinhos iriam ficar por lá mesmo. Estávamos há duas semanas e meia em Miami, eu já estava moreno, minhas malas estavam cheias e nosso tempo estava acabando. Falo com Alexandre, meu primo, segundo ele meus pais estão na fazenda em Goiás. Para nossa ultima semana de férias o combinado era encontrarmos minha mãe em Nova Iorque.

Acordamos cedo naquele dia, não estava gostando muito da idéia de deixar Miami, passamos semanas calmas ali: praia, sol, piscina e compras. Naquele dia ouvi que Gianni Versace havia sido assassinado em frente sua casa em Miami Beach. Pouca importância dei ao fato. Na cozinha iluminada pelo sol da manha eu tomava a ultima garrafa de suco de laranja e G. comia o ultimo pedaço de um bolo de chocolate que havíamos comprado dois dias atrás enquanto falava com sua mãe.

- Minha esta em Milão.

Ele me conta inconformado.

- Fazendo o que?

- Velório de Versace.

- Vai ser em Milão?

- Não sei. Sei que ela esta lá e quer que eu vá .

- E você não vai?

- Não.

- Minha mãe deve chegar amanhã de manhã em Nova Iorque se tudo for como o planejado, não consigo falar com ela.

- Pouco importa, vamos hoje mesmo assim.

- Temos que pegar o avião ao meio dia.

- O que quer fazer até lá?

- Compras? Merecemos uma despedida.

- Agente não devia comprar tanta coisa com nossa idade.

- Porque não?

- Não somos normais somos?

- Somos o que somos e está bom do jeito que está.

- Versace? Uma pequena homenagem ao homem.

- Agente foi lá semana passada.

- Voltaremos antes do previsto.

De malas feitas saímos para nosso ultimo tur por Miami. O carro para em frente à loja da Versace na Washinton Av. 755. Ao meio dia estávamos embarcando em um pequeno avião que Andrea tinha arrumado para nós.

- Me conta alguma coisa que eu não sei.

G. olhava pela janela contemplando as ultimas visões do balneário. Não sei o que poderia contar a ele, perguntei a mim mesmo meus segredos.

- Não tenho muitos amigos. Acho que canso das pessoas, mas tenho medo de ficar sozinho.

- Isso não é novo.

- Não?

- Que você cansa das pessoas? Não para mim. Só uma coisa te faz simpático: sua fama de ser simpático, difundida mais pelas mães de seus “amigos” do que pelos seus amigos propriamente dito.

- Pensarei nisso.

Pulo para sua poltrona. Somos só nós naquele simpático avião que Andrea arrumou sabe-se Deus como. Eu sento no braço da poltrona tentando ver a mesma vista que ele via.

- Eu não conheço meu pai.

Ele não olha para mim, acompanha um amontoado de nuvens brancas brilhosas pelo sol da tarde.

- Como não? Eu conheço seu pai.

- Meu pai não é meu pai.

Ele parece envergonhado. Em seus olhos não há tristeza, existe um pesar, um vazio que ele não compartilha com ninguém. Não fiz perguntas, esperei uma historia que sabia estava por vir. Ele olha perdido pelo avião vazio. Quando me encontrou novamente começou a falar.

- Minha mãe tinha dezoitos anos quando engravidou. Estava começando a ficar famosa. Foi em Milão que ela conheceu um tal “booker italiano”, é assim que ela se refere a ele, sem muitos detalhes . Minha mãe era a estrela em ascensão e ele a queria para ele. Foi na festa de Ricardo Gay na Nepenthe, amor a primeira vista. Eles foram morar em Roma, em maio de 1981 ela descobriu que estava grávida.

- E ela nunca te falou o nome?

- Túlio, e tudo que sei sobre ele. Nunca procurei saber mais do que isso.

- Nunca quis saber?

- Desnecessário. Quando minha mãe descobriu que estava grávida ele foi a primeira pessoa a saber. Ela estava feliz, ligou para ele animada. Ele queria holofotes, fama, era isso que ele esperava dela. Não uma criança. Podia ser o fim de sua carreira. Sem pensar duas vezes ela o largou e voltou ao Brasil, prometeu que jamais o procuraria novamente e foi morar com minha avó, em Novembro eu nasci, em Agosto de 1982 agente já estava em Nova Iorque e ela desfilando. Durante cinco anos foi assim, eu e ela, de desfile em desfile. Ela me conta dessa época orgulhosa, disse que foram os melhores anos de sua vida, eu e ela desfilando pelo mundo, queria poder lembrar mais. Em 1987 ela conheceu meu pai, o que você conhece, no ano seguinte já estavam morando juntos e em 89 se casaram em Paris, moramos um ano em Nova Iorque antes de voltar a São Paulo. A agência já existia no papel e minha mãe tinha cinco modelos trabalhando para ela. Os próximos anos eu fiquei em São Paulo e eles saíram pelo mundo. Hoje são o que são e eu sou o que sou. Quanto ao booker italiano, aparentemente ninguém sabe dele, foi esquecido com o tempo.

- Garanto que ele não esqueceu.

- Minha mãe disse que nunca mais soube dele, acho estranho ele nunca mais ter procurado por ela. Se ele queria fama e dinheiro, hoje ele deveria estar rastejando por perdão. E mesmo se nada ele quiser dela ou de mim, como eles nunca se esbarraram em nenhum evento pelo mundo? Ele não é booker? Eles estão em toda parte.

- Estranho é, mas pelo visto é uma historia enterrada para sua mãe e ele, só você pode começar um novo capitulo.

- As vezes você não fala como alguém da sua idade.

- Minha mãe sempre diz isso – o silêncio que segue sei que não será interrompido pelo meu amigo, ele esta se perdendo em pensamentos deslocados, perdido em seus própria raiva, medo e desejo. – Nunca vi fotos de você e sua mãe nessa época nômades pelos mundo.

- Temos algumas, ano passado ela começou a organizar um álbum, nunca terminou, mas as fotos estão guardadas em uma caixa em seu closet. Ela disse que eu vomitei leite azedo na Cindy Crawford.

Ele esbugalha seus olhos verdes fazendo cara de menino levado, cara conhecida por todos que o cercam, cara que ele consegue tudo o que quer. Rimos muito na próxima hora enquanto ele me contava historias que ele havia ouvido de sua mãe dessa época em que eles viveram juntos, vinte e quatro horas por dia. Minha imagem de Paola mudava a cada segundo, a cada minuto, a cada palavra que Guilherme soltava, sempre a crucifiquei pela maneira que levava a relação com o filho, nunca duvidei de seu amor, e sempre me surpreendi com a maneira que G. olhava para ela, mas agora eu começava a admirar, não só como a mulher de negócios e modelo que é, mas como mãe. Comecei a entender como G. a via. Ele falou de Claudia Schifer, Noami Campbell, Stephanir Seymour, Linda Evangelista, Christy Turlington, Paulina Porzkova e claro Cindy Crawford, os grandes nomes da passarela que acompanharam sua mãe pelo mundo. Nunca tinha percebido o quanto G. sabia sobre aquilo tudo, ele falava de um mundo que eu não conhecia, mas que ele havia vivido sua vida inteira.

Aos treze anos ele foi para Canes com sua mãe. Seu pai João ficou em Nova Ioque enquanto Paola e ele desfrutavam do glamour do balneário Frances. Enquanto sua mãe marcava presença em festas e lançamentos dos filmes, ele ficava no iate de um grande amigo da família, um maguinata grego com muitos empregados, era assim que ele lembrava do homem, alguém com muitos empregados. Em uma tarde quente, G despiu sua roupa e pulou sem medo no mar. Diz que lembra da sensação das bolhas de ar subirem pelo seu corpo enquanto ele afundava e do conseqüente desespero crescente que o acompanhava quanto mais ele demorava para subir a superfície. Quando finalmente conseguiu respirar novamente, ele estava tão próximo do casco do barco que seu tamanho o assustou, ele começou a chorar, suas pernas cansaram e ele afundava a cada poucos minutos. Ele ouvia vozes, barulhos de motores enquanto submerso. Lembra que foi a primeira vez em que sentiu medo da morte. Foi salvo por um dos muitos empregado do barco do maguinata grego. Ele implorou segredo para seu salvador, não se lembra do nome de seu herói, sua mãe não sabe que quase perdeu um filho e G continua pulando do topo mais alto de todos lugares que encontra. Creio que ele gosta da sensação das bolhas de ar subindo pelo seu corpo.

Duas horas de vôo e aterrissamos no JFK em Nova Ioque. Um carro da agencia esperava por nos com um simpático motorista. Fomos direto para o apartamento de G na 82th Streer, Uper East Side, entre a 5th e a Park Av. A secretaria de Paola esperava por nos, elas nos levou a um mercado a poucas quadras dali na 3th av, G e eu sempre gostamos de ir a mercados, adoro as sacolas de saco de pão americanas, compramos muito sorvete. De volta ao apartamento nos jogamos em uma grande cama de casal no quarto de Paola, ligamos TV, o ar condicionado e dormimos durante dez horas seguidas, acordei na madrugada com fome, busquei um pote de sorvete de morango, duas colheres e uma garrafa de água, vimos um pedaço de um filme Frances que não entendíamos nada, voltamos a dormir e só acordamos com minha mãe da na beira da cama, balançando meu pé, sorrindo, já era dia.