"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando... Falei, muitas vezes, como um palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria."

Comigo agora

  • Para ouvir - Café del Mar
  • Lendo - The Glass Castel by Jeannette Walls
  • Para Comprar - Mineral Wash Stretch Bull Denim Slim Slack from American Apparel

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Parte 1- 1997- Continuação - Por L. Beguelli

Janeiro 1997


Primeira mudança significante do ano: escola nova.
Conclusão: vida nova


Desço do carro confiante, nunca tive medo do novo. Minha mãe sempre me disse que um dos piores dias de sua vida foi o meu primeiro dia na escola. Eu carregava um pequeno urso de pelúcia quando desci do carro, segundo todos e provas fotográficas, eu nunca me separava daquele urso, o engraçado é que não fosse as fotos não me lembraria dele. Não me lembro do seu cheiro e nem mesmo de sua textura, sei que não era muito bonito, mas devia ser macio e com certeza obediente, devia ser por isso que me apeguei ao pequeno Ted, por sua obediência e falta de vontade própria. Enfim estava eu e o urso descendo do carro, o urso era branco, teoricamente, cor de água suja na verdade, segundo minha mãe desci apressado, sem nem mesmo olhar para traz, eu não me lembro e odeio isso. No meio do caminho Ted caiu dos meus braços, ou terá sido eu quem o libertou? Não importa. Eu continuei, 2sozinho, sem meu fiel escudeiro, minha mãe gritava meu nome. Eu não ouvia, apenas corria em frente. O urso deve ter ido parar nas mãos de alguma criança necessitada que habitam nosso pais. Minha mãe foi parar no divã. Hoje penso que deveria eu ter chorado, gritado que não queria deixá-la, a cena de praxe, parece, não sou como a maioria.
Alguns anos depois lá estava eu descendo mais uma vez do caro rumo ao desconhecido e minha mãe olhando calada, creio que dessa vez ela não esperava a cena. O dia estava quente, disso me lembro, foi ali que tudo começou a mudar. 03 de Fevereiro de 1997.

Começo minha jornada em uma escada, pessoas reencontram-se no portam. Ceninha mais feliz. Soou irônico isso? Achei uma graça a alegria das pessoa e o desprezo total de alguns. Há os perdidos, estes são novatos, assim como eu, mas não estou perdido, afinal sei onde estou. Alguns rostos me são familiares, alguns que conheço por conhecer, por serem irmãos de alguém, amigo de algum primo ou filho de algum conhecido de meus pais. O garoto que forma o centro de uma roda barulhenta ao lado esquerdo do portão, este conheço bem, é Alexandre Beguelli, meu primo. Ele me vê, ele acena. Retribuo, teoricamente acredito que devo me aproximar, mas evito um contato mais próximo. Não quero parecer grosso, mas são sete da manhã e não costumo ser muito simpático nas primeiras horas do dia, enfim, continuo subindo a escada.
38 são os tijolos que existem entre o primeiro degrau e o último. Isso se contato em linha e restringindo seu campo de visão apenas a linha de tijolos a sua frente, ignore a periferia. Chego em um corredor, parece infinito. Sigo em frente, as paredes são de tijolos a vista, do mesmo tipo do da escada que passei a pouco. Ao lado esquerdo temos um pátio com mesas, bancos, uma agradável cantina e canteiros floridos. Há direita, portas e mais portas me fazem lembrar aquelas antigas escolas americanas que vemos em filmes. Encontro um banheiro, entro sem estar com vontade, me olho no espelho, mexo em meus cabelos, faço caretas, ouço alguém entrar e paro com as caretas.
Encaro-me pela ultima vez no espelho do banheiro agora já movimentado por outras figuras. Calça jeans clara, camiseta do colégio, não havia muita opção. Sorrio para a imagem que me acompanhará pelos próximos três anos.
A sala ainda esta vazia. Os poucos que a ocupam estão em silencio. Ambíguo são os sentimentos que nos acompanham nesse momento. O medo do desconhecido e da rejeição lutam fervorosamente com a ansiedade do novo. Fico quieto já que não há nada dizer.
Sinto-me em um verdadeiro campo de batalha. Analiso o terreno e resolvo me acomodar na ultima fileira do lado esquerdo, quinta cadeira.

Observação do relato:
O lado esquerdo está se sobressaindo por hoje, meu primo estava lá em baixo no lado esquerdo da escada, no corredor o lado mais interessante é o esquerdo, saindo do banheiro pisei em um chiclete com o pé esquerdo, e agora resolvo sentar do lado esquerdo da sala. O escolhi por ser o lado esquerdo e inconscientemente no dia de hoje, 03 de fevereiro, estou condicionado a ele, ou simplesmente por que era o mais vazio?


Debruço-me na mesa a espera do inicio de algo. Pessoas entram e saem da sala. Os minutos vão passando e nada me chama a atenção, mas pouca atenção presto a alguma coisa para achar algo ou alguém interessante. A inércia me incomoda profundamente.
Passo a reparar: já existem quatro perto de mim, um muito simpático, disse-me “oi”, um outro que não consigo pré julgá-lo, e mais dois de aparência normal. Penso do porque apenas um de quatro disse oi, primeiramente chego a conclusão obvia, apenas um é simpático, mas depois imagino o contrario. Eu no meu mundo de observador não manifestei-me e quando estava perto de chegar a alguma linha de raciocínio que levasse a algum lugar, algo finalmente chama minha atenção: o menino que sentou ao meu lado. Ele é loiro, seu cabelo ainda está molhado, alguns fios estão grudados em sua testa, quero arrumá-los. Deve ter minha altura, talvez um pouco mais baixo, mas muito pouco. Os olhos são castanhos brilhantes, fortes, lindos. Sua pele parece macia e perfeitamente lisa. Percebo uma pinta no lado esquerdo de sua testa, seu cheiro é bom, cheira a banho recém tomado. Ele me incomoda, talvez por sua beleza, sim ele é bonito demais e eu sei disso, o que me deixa mais incomodado. A sensação é de estar diante de alguém superior a você, alguém que faça valer a pena uma batalha, mesmo que a vitória não seja certa. Queria falar alguma coisa, talvez um oi, mas não digo nada, permaneço na inércia de meus pensamentos.

- Não sei se estou no lugar certo. – ele parece despreocupado, fala para o nada registrando o lugar com seus olhos brilhantes – Ei você! – ele esta me cutucando, não gosto que me cutuquem com o dedo - Sabe se eu estou no lugar certo?
- Como posso saber se você esta no lugar certo se não sei onde você deveria estar?
- Acho que entendi o que você falou. A Andresa disse que estou no lugar certo.
- Se a Andresa disse – voltamos ao silencio.
- Aquela é a Andresa – tinha uma menina perto da porta, sentada quieta, perfeitamente ereta, revirando paginas de um caderno em branco.
- Sua amiga?
- Não, conhecida, estudávamos juntos no outro colégio, é o tipo que sabe onde é o lugar certo.
- Acho que entendi.
- Prazer, sou Guilherme.
- Luca Beguelli.
- Holscher.
- O que?
- Meu nome, Guilherme Holscher, já que você disse o teu completo.
- Eu não disse o meu completo, apenas o primeiro e ultimo.
- Eu só tenho um primeiro e um último, sempre achei que poderia ser maior, gosto de nomes grandes. Beguelli do banco?
- Sim, Beguelli do banco.
- Nunca conheci um antes.
- Um Beguelli do banco?
- Um Luca.
- Já conheci alguns Guilhermes.
- Algum que não tenha gostado, brigado ou mantém algum tipo de ressentimento?
- Não que eu me lembre.
- Ótimo, não seria muito agradável eu ser a fonte de uma lembrança ruim, já que pretendo ser seu amigo.
- Ser meu amigo? – ele ri em silencio.
- Quer ser meu amigo?
- Posso tentar.
- Acho que não temos mais muita escolha.

A sala já está cheia.

Sun Tzu em “A arte da guerra” já dizia que para fazer o inimigo vir de livre e espontânea vontade, deve-se exibir os lucros aparentes. Eu estava tentando, e ao que parece ele também. Começou aqui um processo de atração mutua, eu querendo com que ele me admirasse, e ele querendo com que eu o idolatrasse. Devo dizer, parece funcionar.
O dia chegou ao fim comigo em minha cama pensando unicamente no meu novo amigo, eu estava feliz e ansioso pela próxima manhã.

Meu "eu vazio"

Angustia-me o incerto. A espera. Fenômeno que incomoda não apenas meu ser, mas todo aquele com esperança de que algo de bom possa vir a acontecer. Mergulho em pensamentos e jornadas para fugir, não da dor, mas da mais pura angustia e ansiedade da espera. O incerto me incomoda. Gosto de saber onde estou, mas quero o prazer do inesperado. Quero enfrentar o perigo, conhecer o caos, encontrar a paz. Viver é estar em constante angustia. São paixões em busca do grande amor. É carregar eternamente um vazio que nunca será preenchido, nem mesmo por litros do mais caro champagne. Um vazio seu, só seu. Faz parte do seu ser, de cada escolha que se toma, de cada caminho que se pega, de cada tombo que se leva. Ele nunca o abandonará. Nos cabe aprender a viver com ele. É sua dor e alegria, sua alma. Ele é fiel e leal. Não ouse contrariá-lo. Enquanto espero as mil respostas para uma vida que ainda está apenas começando, aprendo a viver com meu amigo. Pela angustia que vivo, ele me faz companhia, meu vazio, meu eu.
De amores irei sofrer. Por paixões me embriagarei. Tombos levarei. Alegrias viverei. O sucesso alcançarei, por isso sonho. Sonho com as respostas que ainda não tenho, com os amores que ainda terei, com a vida que um dia farei parte. Enquanto isso me divirto com meu eu vazio escolhendo caminhos, recolhendo cacos e amontoando experiências dia após dia. Sustento-me na certeza que tenho muito a aprender, de que ainda é cedo e tudo ainda é possível para alcançar a vida sonhada com a paz de um “eu vazio” feliz.

Pedro Couto Rosa

Enfim um começo - Por L. Beguelli

Paris, 05 de Março de 2005

Perco-me na noite, a solidão me acompanha, o medo de não achar o paraíso é eterno. Paraíso este inimaginável e indescritível. O que é o paraíso? Como é o paraíso? Não sei e talvez nunca saiba, mas definitivamente o meu está longe do ideal puritano que nos persegue.
Não sou escritor e muito menos poeta, apenas despejo nessas paginas minha vida, tentarei entende-la, onde errei? Apenas peço que não reparem em minha simplória obra. Você nunca pensou em escrever? Nem eu a algum tempo atrás, cerca de dez minutos vislumbrei a minha salvação. Que salvação cristo? Não há salvação, minha única salvação sou eu mesmo, mas o momento é de total desespero e me enterro em meu mundo e tento não pensar em nada, apenas em escrever, ocupa minha mente. Bastou o ócio, uma garrafa de champagne, um laptop, um maço de cigarros e estar a um passo da depressão.

“ A vida é repleta de tristezas: pouco importa o que fazemos, no final todos vamos morrer, cada um de nós esta preso na solidão de um corpo autônomo; o tempo passa e o que passa nunca voltará. A dor é nossa primeira experiência de desamparo no mundo, e ela nunca nos deixa. Ficamos com raiva de sermos arrancados do ventre confortável, e assim que a raiva dissipa, a depressão chega para assumir o seu lugar.”
(“O demônio do meio dia”, Andrew Solomon)

Lembro-me de meu primeiro contato coma tal da depressão. Foi logo em minha primeira seção terapêutica. A sala era grande e havia uma bela janela ao lado da mesa da doutora, seu nome era Maria Paula. O consultório ficava em Higienópolis, num belo sobrado. Apesar das grandes janelas a sala era pesada, cortinas iam ate o chão, aquilo me dava uma sensação de sujeira, me pareciam incrivelmente empoeiradas. Os moveis eram grandes e pesados, de madeira escura e polida, bonitos, mas pesados. O globo era o que me chamava mais atenção, era enorme e sempre quis ter um globo daquele. Eu não gostava daquele lugar, desde o primeiro momento. Sento-me em uma poltrona de couro preta, a moça é mais nova do que imaginava e posso ate mesmo dizer bonita. Gosto de gente bonita. Foram cerca de cinqüenta minutos que para mim não levaram a lugar algum. Minha mãe entra na sala, a tal moça após cinqüenta minutos de perguntas e de ouvir o que eu fiz nos últimos dias, chega a conclusão de que “ seu filho tem tendência a depressão”. Como assim? Este foi meu contato com a depressão.
Registro: o primeiro de muitos.
Durou três meses a terapia, nada que presta saiu de lá. Não sei por que contei isso, apenas me lembrei e foi algo marcante. Ainda hoje não tenho um globo como aquele.
Nota importante: comprar um globo.
O que relatarei aqui é minha vida, nada mais e nada menos, mesmo porque nela já se inclui tudo: meus sonhos e medos, aventuras e decepções.
Para isso devo escolher um começo, eu escolho 1997.
Uma pessoa entra em sua vida e tudo ganha um novo gosto e sentido.

Novo Mundo


Não sei bem onde tudo começou. Obvio nada surgiu do nada. Há sempre um começo, aqui pode vir a ser relativo, podemos falar em globalização de valores e ideais, de uma nova geração que prolifera mundo a fora. São os “loucos, insanos e inconseqüentes” do novo mundo. Momento este também vivido nos anos 70 através de um movimento onde a paz e amor reinavam a base de maconha e boa música. Ouso dizer algo infantil perto de hoje. Era algo novo acontecendo, um novo mundo surgindo para muitos, um estilo de vida passava a ser inventado e seguido. Foi belo sim e prestativo. Foi chocante, modificou o cenário geral. As roupas mudaram, mas as roupas sempre mudam. Todos sabiam o que estavam acontecendo, os hippys estavam por ai. It was not just a fad, mas passou, ainda hoje encontramos as marcas da época de drogas, sexo e rock’ n’ roll.
Enquanto os hippys se cansavam, outra novidade surgia, é sempre assim. Sua glória se deu em New York city, sob o comando de Steven Rubell e seu sócio Iran Strange, onde a 154 West 54Street tornou-se o endereço mais badalado do mundo, consagrando a nova era disco. Um outro novo mundo. Rios de dinheiro, celebridades, musica, drogas e o clássico “Man in the moon” cercado por nuvens de cocaína em suas narinas no centro da pista mais cool do planeta, marcaram aquele lugar. Festas e mais festas, tudo maravilhoso. Rumo a decadência humana. Decadência natural e obvia demais para ser notada. No mundo de fantasias tudo era belo e bom demais para se admitir algo de errado.
O Studio 54 transforma-se num marco histórico, lembrado com saudosismo pelos que viveram e com utopia por uma geração que jamais conhecerá seu verdadeiro brilho. Na mãe das boates modernas, na celebração do hedonismo, liberdade, glamour e decadência andavam lado a lado, é a era “Me Decade”, vivida por pouco e bons, sonhadas por muitos, e ainda hoje imitada por milhares de jovens carentes de ideais e sentimentos. Quando se perdeu o controle a boate mais famosa do mundo fechou suas portas em Março de 1986. Enquanto isso, nós nasciamos, quando o caos tomava conta. Deve ter sido uma bela época, no mínimo divertida, eles eram diferentes, mesmo dentro de seus iguais.
Mais uma vez caio na problemática do tempo, pois não sei bem onde foi que perdemos o controle de nossa marcha contra o normalismo, o comum e o igual. Quando foi que toda uma geração entrou em crise? Pois estamos em crise. Talvez tudo seja apenas um efeito acumulativo de gerações. Todo jovem, creio eu, passa pelo que estamos passando, pois esse novo sentimento, esse individualismo desenfreado, essa carência mascarada, essa busca constante por algo novo, isso é coisa de jovem ou artista, não é coisa de família moldada, ou de pessoas com destino e mente pré-fabricada. Esses não se importam com o normal, com o comum. Basta o que mundo oferece, um bom carro, uma viajem a Europa, casa, filhos e cachorros. A crise de hoje se impera formando o novo mundo do qual eu falo, de um novo pensamento, de uma nova dinâmica social, talvez mais camuflada do que muitos novos mundos que já acorreram em nossa história, mas acredito a mais significativa. O álcool passou a ser nossa água. Bala deixou de ser um amontoado de açucares e corantes para lindos comprimidos com capazes de nos dar tudo: euforia, liberdadem, medo, desejo, ilusão. São sentimentos sob sentidos. Buscamos o limite de sentir, de viver, mas no fundo temos medo da realidade que formamos, por isso não podemos parar. Encarar o perigo? A verdade? Pode ser dura, dolorida. Temos medo, por isso continuamos nossa marcha, nosso novo meio de viver.
Tudo começa com um convite e quando você toma conta da realidade que o cerca você está feliz, mas pode chorar mesmo assim, seus “amigos” estão ali, é o paraíso, pouco realmente o conhecem. Duvido que algum deles saiba que você não gosta de azeitona, ou molho de salvia. Pode ser o inferno. A musica está alta, os murmúrios de alguém a metros de distancia é tudo com o que você se importa. Você está louco, bêbado e drogado, portanto o que sente ou quem está ao seu lado pouco importa naquele momento. Este alguém importará em um futuro próximo quando você, no desespero de seu vazio interior de não saber nada do que se passou com sua vida nas horas passadas pedirá desesperadamente um relato. Provável pouca veracidade iremos encontrar ali, com sorte algo será dito, a maioria inventada, ou talvez será apenas a realidade vista pelo outro, que sabe Deus como e onde estava e se a historia que contas, tu es realmente a personagem principal. No fim terá sido apenas mais uma noite e você sabe que foi ótima, mesmo não sabendo muito, como também sabe que um dia irá parar, mais ainda é cedo para isso, portanto, que venha a próxima.
Podem escolher o cenário ou o ato que preferirem, no final tudo se resume a uma cena geral. O volume de drogas pode ser alterado, o álcool provável sempre estará presente. O grupo como um todo não tem um esteriotipo definido, sua moda é ditada pelo mercado ou pela consciência de cada um, depende apenas do grau de intelectualidade de cada membro. Muitas variáveis cabem nesse ensaio que hoje escrevo, de uma sociedade em formação, forçada a encarar a dinâmica desvairada e a loucura desse mundo que hoje vivemos. Gerações estão em choque, muito mudou, há muito que processar. Valores foram distorcidos, tabus quebrados e verdades vomitadas.
Olhe a sua volta, mas não ouse julgar ninguém. Hoje as aparências realmente enganam, a moda se democratizou como dizem por ai. De todos você pode ser o melhor ou o pior, mas creio em algo, poucos são iguais, poucos são apenas mais um, e eis um dois motivos do caos social vividos por nos. Buscamos nosso Eu e lutamos por ele. Nós, jovens sonhadores, loucos, vivos, insanos e metralhados pelos tabus do passado e os perigos do novo mundo. Hoje tudo parece possível.
A consagração da moda vem com a constante busca individual de nosso ego e nosso medo decrescente de experimentar. Nunca esteve tão próxima se ser o espelho de nossas almas e ao mesmo tempo se torna uma massagrante industria responsável pelo sofrimento de milhares de jovens que passam a vida tentando ser uma figura de revista. Jovens estes alienados dessa luta pela identidade única dentro de um montante pré-estabelecido. Pois é nessa luta pela identidade individual que está a mudança da sociedade, e de nossa geração. É que estamos fartos de sermos mais um, estamos na época onde o ócio começa seu reinado e o valor é dado a unicidade e a criatividade gerada por cada um de nós.
No cenário geral tribos e conglomerados se formam aos montes tentando mostrar seus ideais. Emo tem ideal? Se tem não consegui entender muito bem, mas pouco importa, para mim eles choram, usam skining e baby look e são felizes assim. Perdoem-me esqueci do All Star. No fundo são varias pessoas tentam achar seu lugar no mundo para provar seu valor como um ser pensante e desigual da massa que o cerca, contudo sua busca sempre começa entre seus semelhantes, onde novas famílias são formadas e o seu eu deixa de parecer algo grotesco para ser algo lindo e admirado. Uma tribo se forma. Todos buscam seus semelhantes e repudiam seus iguais. Pois um igual perde seu valor e não tem mais importância. Nossa geração deixa o refugio de seus lares para encontrar no mundo sua “verdadeira” casa, e muitos se perdem, pois para isso precisam estar preparados a encarar o mundo. Na busca do Eu, na caminhada pelo desconhecido, tudo pode vir a acontecer e vários “Eus” serão formados e destruídos. Na batalha diária do novo mundo, aos que se perdem falta a certeza de ter para onde voltar caso a caminhada um dia acabe.
Não digo que é o fim. Que condeno aos que buscam a normalidade e o clichê, muito menos aos que jogam-se no mundo em busca de aventuras e pessoas para conseguirem no fundo se entenderem. Não digo que o estamos presenciando é bom ou ruim, mas que á penas algo notável e novo. Tabus estão sendo quebrados, a vida parece se tornar leve, contudo perigosa. No fim creio que busquei dizer que mudamos, numa esfera ainda intangível de compreensão e proporção. Para onde estamos indo? Não sei. Adotamos um caminho cujo destino é incerto. Chegaremos mesmo em algum lugar ou é na busca que está a vida que sonhamos?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Alguma coisa no meio de tudo


SEI QUE TENHO MUITO A DIZER
NÃO SEI POR ONDE COMEÇAR
SEI QUE MUITO HÁ PARA APRENDER
E TENHO A CERTEZA QUE OUTROS MUITOS JA APRENDI

ERROS NÃO POSSO AVITAR.
CONTUDO TENTAREI NÃO REVIVÊ-LOS
CASO ISSO OCORRA, PERDÃO
COMO TODOS, ERRO

MAS HOJE JÁ NÃO TENHO MEDO
NÃO MEDO DE ERRAR, APENAS MEDO DO ERRADO!
DA CULPA, DO MINHA IMAGEM NO ESPELHO.
TALVEZ JA TENHA DITO AQUI ALGO DOS MUITOS QUE QUERO DIZER

PERCEBO QUE AGORA COMECEI,
MAS NÃO SEI ONDE IREI PARAR
AINDA ME FALTAM CAMINHOS A ESCOLHER E PLANOS A TRAÇAR
POR AGORA REPOUSO NA PAZ DE TER ALGHO HÁ ESCRVER

DE SONHOS ESTOU CHEIOS
CABE-ME AGORA VIVÊ-LOS
NOVAMENTE CAIO NA DIFICULDADE DO INICIO
POR ONDE COMEÇAR?

POR AGORA VIVO, JA ESTA DE BOM COMEÇO
SONHOS SEMPRE ME ACOMPANHARÃO, ME ALIMETAM.
O APRENDER É CONSTANTE, ALIMENTAM MEUS SONHOS
ENQUANTO ISSO, TUDO ACONTECE E O SOL SE POEM NOVAMENTE

AGORA VEM O FIM QUE REMETE A UM NOVO COMEÇO
COMEÇO ESSE DE UM NOVO AMANHECER ACOMPANHADO DE NOVOS VERSOS
VERSOS DE NOVOS APRENDIZADOS APANHADOS POR NOVOS CAMINHOS QUE VIREI A PEGAR QUANDO O SOL NASCER NOVAMENTE
UM NOVO SOL, DE UM NOVO DIA, PARA UM APRENDIZ EMBUSCA DO COMEÇO DE SUA JORNADA

Por Luca Beguelli


Não sei bem o que será de mim. Sempre tive a certeza de estaria protegido, até disso hoje duvido. Posso eu proteger-me de mim mesmo? São momentos que mudam nossa vida e trajetória. esses momentos mudam nosso meio de pensar, de ver as coisas. Coisas acontecem mesmo não devendo acontecer, não temos muito controle sobre o que será. Sonhamos, planejamos, desejamos, mas sonhos são apenas direções, o que irá acontecer nesse caminho, isso meu caro, não podemos prever. Isso acontece porque nossos sonhos se cruzam com os sonhos de outras pessoas. Nossos caminhos se encontram e nesses momentos as vezes perdemos nossa direção até o momento que encontramos um outro sonho por ai de um outro alguém que nos faz lembrar qual é o caminho que devemos seguire lembramos que temos um sonho só nosso. E assim vamos indo, vivendo e sofrendo. Péssima frase esta última eu sei, mas o que posso fazer, não escrevo a muito tempo. Comecei este parágrafo para chegar em algum lugar, momento este que faria algum sentido e eu finalmente continuaria a historia que comecei.
Prometo que depois disso tentarei ser mais fiel a tal coisa chamada cronograma, mas agora tenho que mostrar a vocês uma outra carta, a minha carta. Sim a carta que escrevi a G. em resposta aquela que ele me enviou de Paris. Ainda não consigo entender o porque ele foi parar em Paris. Ele disse, eu sei, mas não entendo, bom, há coisas que não entendemos mesmo.
Estava quente em Praga quando comecei a escrevê-la. O relógio marcava sete e meia da noite, devido ao problema de fusos e ao fato daquele ser meu primeiro dia lá, não sei há que cidade aquele relógio era fiel, mas isso pouco importa. Ainda não havíamos jantado e nem saído do hotel, dormimos muito aquele dia, estava exasto. Sant Tropez havia esgotado minhas energias e figado. Sai do quarto após me trocar. Nate estava no banho, sai sem ele notar. Vocês não sabem quem é Nate não é? Nate é o irmão da Brier. Brier é a moça que meu primo Pedro ficou em Nova Iorque durante a semana de moda daquele ano, 2004. Nate Walker, lindo. Meu novo amiguinho.
Eis aqui a carta:
25 de Julho de 2004
Praga, República Tcheca
Esplanade Prague Hotel


Começo isto com um aviso: não irei rever o que escrevi. O que foi posto no papel não será apagado, isso para você não dizer que eu ensaio coisas. Claro que há ocasiões que é necessário. O tal ensaiar coisas, palavras e atos. Enfim deixe-me começar, mesmo eu já tendo começado algo aqui. Entende como preciso de revisões? Perco-me em mim mesmo.
Estou em um café próximo ao hotel, lugarzinho simpático. Quando acordei sai a procura de um local para escrever esta carta. Precisa de um lugar calmo, creio que precisava mesmo era ficar longe de pessoas conhecidas para eu não ser importunado. Preciso lhe escrever para que eu possa começar a pensar em fazer qualquer outro tipo de coisa.
Quando sua carta chegou em minha casa minha mãe a enviou para mim. Eu estava Sant Tropez, e a li no meio do Senequiê bebendo Don Perigon, não me lembro de qual safra, isso foi há duas semanas. Não sabia iria responder, mas sabia que iria me arrepender se não a respondesse. Todos a minha volta perceberam as feições de minha face mudar quando a li, era inevitável, ao menos as lagrimas consegui segurar. Tentei esquecer o que li naquele momento, afinal não havia nada a ser feito, mas depois, com o excesso álcool, desisti, ficamos mais vulneráveis bêbados não? Dificulta o controle das emoções.
Quando diz que alguns lugares parecem novos sem mim entendo bem, não é diferente comigo. Em Sant Tropez, a suíte do Byblas não me pareceu tão aconchegante como me lembrava, o Grand Joseph, lembra quantas noites passamos nesse restaurante? Parece ter perdido romantismo, sempre o achei tão feito para casais, hoje mais do que nunca. Ambos continuam ótimos, apenas me pareceram diferentes. O Nikki Beach continua o mesmo, não há como mudar concorda? É sempre a mesma explosão de sorrisos e álcool, é o tipo de lugar feito para pessoas como nós extravasarmos nossas alegrias e tristezas, claro sempre sorrindo para todos de preferência, gosto desse lugar. Conhecemos muita gente lá. Encontrei conhecidos e todos fizeram a pergunta que ouço em todos os lugares que vou, “Cadê o Holscher?”. Poucos dias depois de receber sua carta recebi um convite de pessoas que conheci por lá mesmo para uma pequena temporada em Praga, e aqui estou eu. Durante a viagem a reli diversas vezes, Gus ameaçou jogá-la fora, fiquei com muito medo naquela hora. Deve estar se perguntando quem é Gus. Pois bem Gus é primo do Nate, este acredito que se lembras bem quem é.
Fico feliz por sua nova casa, pela cidade que escolheu e que seu sentimento de esperança e oportunidades para uma nova vida o leve caminhos felizes. Creio que Paris, assim como todos os outros lugares que passamos juntos, salve exceções desagradáveis, será sempre nossa quando estivermos juntos. “Sempre teremos sempre Paris”. Quanto aos sonhos e planos que passamos noites programando, não os descarte ainda, algum de nós precisa mantê-los vivos de alguma maneira. O piano deve ser lindo e os Swarovskis deslumbrantes, por isso te peço algo e preste muita atenção: se estiver bebendo algo em algum deles agora, desista e o deixe em cima do piano com suas velhas novas bandejas de prata, seria um desastre quebrar um deles e algo ainda será dito nas linhas que se seguem que podem provocar isso.
Quanto as lagrimas que não viu só posso dizer que elas existiram, mas se foram na noite anterior, quando eu encarei a verdade de nosso mundo. Eu precisava fazer com que você enxergasse também. Antes de mais nada quero dizer que ainda te amo e sempre te amarei, as formas poderão mudar mas nunca sairá de dentro de mim, você faz parte da minha vida e da minha pessoa, e isso será para sempre e que nada do que fiz tem relação direta com o “novo amor”, mesmo porque ele não existe, a paixão talvez, mas posso viver sem ela e provavelmente logo se acabará, você tem razão. O “novo amor” foi apenas a situação que criei para te fazer ir embora, para me distrair, alguém que estava pronto para me levar a algum lugar depois que você se fosse. Precisava que sentisse um pouco de raiva, fui fraco e escolhi o caminho mais fácil ao invés de te mostrar o que se passava dentro de mim. Não procuro um novo amor, ainda tenho um muito vivo aqui dentro. O porque fiz tudo isso? Talvez um dia entenda, queria respirar sem sua ajuda, sorrir sozinho e conhecer coisas e pessoas novas, conhecer o mundo sem você ao meu lado e ate mesmo a dor de estar sozinho, dor essa muito forte no dia de hoje, como precisava de você ao meu lado. Precisávamos nos libertar um do outro e reaprender a nos amar acima de tudo. Estava com medo de viver a vida sem a conhecer por completo, não sei mais o que pensei.
Lembro-me quando nos conhecemos, sua beleza foi o que me chamou a atenção de imediato, mas depois de apaixonei por sua segurança e liberdade. Fazia e dizia o que queria e mesmo assim nunca chegou a humilhar ou desrespeitar alguém, as pessoas te admiravam e desejavam, todos te invejavam, uma inveja boa acredito. Não sou modesto, portanto afirmo que também tinha meu brilho, talvez fosse um pouco mais narcisista que você, mas da minha maneira fazia e conquistava tudo. Nós perdemos isso, fizemos de duas forças uma e nosso brilho passou de existir a coexistir. Precisamos nos achar novamente, resgatar o nosso brilho e essência, éramos parecidos mas completamente diferentes, passamos a ser o mesmo. Eu uma metade e você a outra. Simétricas.
A verdade é que tudo o que pensava ou pensei nos ultimas semanas não importam e nem mesmo sei se fazem mais sentido para mim. Desde ontem tudo mudou. Já disse que o queria ao meu lado? Chega a doer a falta que esta me fazendo. Preciso ouvir de você “esta tudo bem, eu estou aqui”. Às vezes o novo assusta, sei disso, mas esse novo está me matando. Vejo minha vida desmoronar e meus sonhos evaporarem. Forço-me a acreditar que não é o fim, que apenas as coisas irão mudar e que preciso de novos sonhos, sei que é assim, mas ainda é muito cedo para acreditar, não estou nesse passo do processo. Talvez precisasse ouvir de você para acreditar.
Se soubesse o que me esperava provavelmente não teria feito o que fiz com nós e ainda estaríamos juntos, chorando ou quem sabe fazendo comprar para esquecer a realidade. Dei-me conta que ainda não contei o fato de real importância, e isso deve estar te deixando louco, acabarei com sua angustia: Camila está grávida. Ela me disse pelo telefone ontem. Está entrando no segundo mês de gestação, deitado na cama tentei fazer contas, ela pode ter razão. Ela ainda não foi ao médico, ninguém sabe a não ser por poucos escolhidos para nos ajudar a carregar o fardo do segredo, o que inclui Maria Fernanda, Pedro e agora você. Ca disse que tentou falar com você antes de me ligar, estava sem saber como me contar e queria sua ajuda. O que teria dito?
Hoje tenho 22 anos e aos 23 serei pai, como posso estar preparado? Pela primeira vez me sinto impotente perante a vida. Semana que vem voltarei ao Brasil para a festa do banco, é quando pretendemos contar a todos, na verdade não conversamos sobre isso, mas acredito que não há motivos para não contarmos, um dia terão que saber, que seja o mais rápido possível. Será que marcamos um jantar para o dia seguinte a festa? Imagino a reação, acho que não terá desespero, eu e Camila somos o casal sonhado por todos. Vislumbrarão o casamento que para todos estava claro que um dia aconteceria. Eu não quero me casar, eu não posso me casar, afinal sou gay, e essa verdade que precisamos encarar.
Hoje pela manhã me peguei imaginando o que eu feria no banco, sempre esperei pelo dia que entraria por aquela porta, nunca pude me ver lá dentro. Posso estar sendo precipitado, disso eu sei bem, mas são pensamentos inevitáveis. Lembrei da parte de sua carta que diz que quer gritar no meu ouvido, fique a vontade, estou passando pelo mesmo com a única diferença que não sei em que ouvido gritar. Devo gritar ao mundo.
Mencionou que não estava conseguindo falar com Pedro. Ele estava em Londres e agora na Suíça a trabalho, mas daqui a três dias já deve estar em São Paulo novamente. Ele perguntou como foi nossa conversa, sabe o que disse? “como o planejado.” Não sei como será daqui para frente, mas sei onde queria estar agora. Queria poder estar na sua cama dormindo ao seu lado, ou na sua casa com a Maria nos mandando sair do sol. Queria voltar no tempo e sentir novamente a sensação de paz, liberdade e tranqüilidade que tínhamos, éramos felizes e ate nossos problemas eram divertidos, nada nos abalava e a vida era simplesmente bela. Só resta a saudade. Sinto falta do colégio e ate mesmo de você reclamando das meninas que ficava te seguindo. Sinto falta de dormi na aula e você me assustar e mais do que tudo sinto falta do “te amo” que ouvi de sua boca na minha festa de aniversário de 18 anos. Foi um momento único e duvido que viverei algo parecido novamente, nunca me senti tão amado e feliz, minha única vontade era dar gargalhadas de alegria, mas tudo o que consegui foi soltar lagrimas, lembra?
Na carta você também me faz um pedido,eu o nego. Caso eu te veja na rua irei gritar ate você se virar e eu sentir você nos braças. Nesse dia pode me bater, me abraçar ou gritar no meu ouvido, acho que mereço todos. Quanto ao pássaro branco na janela eu realmente não me lembro, e sim, quase tudo o que disse naquela noite foi ensaiado, não conseguiria de outra maneira. Não sei se devo pedir perdão e não aceito o seu adeus, sabe que não é o fim, nunca teremos um fim.
Por fim só peço que me ame, independente da forma, preciso do seu amor e lealdade, preciso do saber que independente de tudo o que possa ocorrer entre nós sempre terei o amigo que conheci no colégio e me levou para andar de ônibus. As folhas estão acabando e os meninos me esperam para mais uma noite. Minha vodka acabou e acho que não tenho mais nada a dizer no momento.

Eternamente seu, com amor,

Luca Beguelli

PS: espero óculos novos.

Um começo......

Muito ainda há de ser clareado em minhas idéias para que consiga explicitar aqui uma história como merecem receber: com começo, meio e fim. Há algum tempo duas pessoas sugam minhas noites, mas nada ainda está claro.

O que será escrito aqui não passa de mais uma história, mas não garanto uma cronologia convencional.

Começo tudo pelo fim de algo.
A verdade é que gosto de cartas, destas em especial.

Não se trata de uma carta de amor ou odio, apenas uma carta que representa o início de uma nova etapa para duas pessoas que um dia amaram-se acima de tudo.

Como essa história de amor se desenvolveu, bem, para isso teremos tempo.


Por agora deixo dois nomes à vocês:

1. Luca Beguelli

2. Guilherme Holscher

Nomes bastam, não irei descreve-los e analisa-los com meras palavras, isso também deixo a vocês, caso um dia cheguemos a um fim.

PRIMEIRA CARTA - POR GUILHERME HOLSCHER À LUCA BEGUELLI:

20 de Junho de 2004
Paris, França
Minha casa

O irônico é acabar em Paris. Acabar ou começar, isso é uma questão de ponto de vista. Quantos planos fizemos para essa cidade, quantos capítulos de nossa história foram escritos nessas ruas e caffés. Visitei outros lugares, alguns já conhecidos por nós, contudo pareciam novos sem você. Você teria gostado, foi uma bela viajem. Melancólica, mas bela. Por onde passei foi em Paris que me senti amparado, foi onde me senti em paz. Acho que posso construir algo aqui. São Paulo de repente ficou pequena, Nova Iorque não me parece um lar. Outra eram lindas, porém calmas demais e podem vir a ser enfadonhas. Gosto da loucura e do caos da cidade grande. Gosto de ter o que quero e preciso quando quero. Enfim Paris é Paris. Lembro muito de você aqui; os momentos vividos, as aventuras sonhadas. Hoje é uma nova cidade, continua bela e viva, mas não é a mesma sem você. Ela não me traz tristezas, e sim, esperanças, transborda oportunidades e grita por moda, prazer e beleza. Sinto-me vivo e não preso ao passado.
Quer algo novo? Comprei um apartamento! Tenho uma casa agora, minha casa. Comprei um piano também, foi em um antiquário semana passada, mas é certo que ele funciona mais como objeto decorativo do que como instrumento musical propriamente dito, como sabe não toco piano, mas isso não importa. De tudo, o que realmente iria gostar é do meu novo jogo de cristais Swarovski que ganhei de minha mãe no dia em que ela voltou ao Brasil. Acredita que veio ficar duas semanas, sem trabalhar, aqui comigo? Foi bom tê-la por perto. É certo que tudo veio dela, mas os cristais foram embrulhados, realmente um presente. Eu não havia previamente escolhido e nem mesmo comentado meu desejo por eles. Ela simplesmente olhou e achou que eu iria gostar. Simples assim, inesperado como deve ser. Você é bom com presentes. Lembro-me do último que me deu. Você lembra?
Com meus novos cristais montei um bar em cima do piano. As bandejas que completam o cenário foram compradas em mercados pelos quais passei em minha viajem; Paris, Barcelona, Pérsia, Marrocos... Fui também à Índia, lá encontrei as mais belas peças, tão únicas e especiais. Para cada uma me contaram histórias diferentes. Uma delas pertenceu à família de um antigo Sheik e tem mais de cem anos. As garrafas que acompanham as bandejas acredito que possa imaginar quais são. Conhece-me suficientemente bem para isso. Ao lado do piano posso ver a Torre Eilfel, uma bela vista.
Deixarei de lado meu apartamento agora, passarei a parte dramática. Quando me forço a lembrar daquela noite, a noite em que fui obrigado a encarar a verdade, concentro-me nas palavras que foram ditas e nas que não c2onsegui dizer, mas pouco consegui entender, por isso não sei o que sentir.queria poder gritar em seu ouvido, acho que ajudaria dissipar algo aqui dentro. Tão pouco foi dito que talvez tenha perdido algo. No meio de gritos e sussurros faltaram lágrimas, suas lágrimas. Uma imagem não sai de minha cabeça: você parado de costas à janela onde uma pomba branca nos observava, seus olhos fugiam dos meus. Ainda posso ouvir sua respiração forte, sua roupa está clara em minha memória: estava usando as calças que Pedro te deu (aliás, não consigo falar com ele, tentei a semana toda). Naquele exato momento, a pomba me parecia mais familiar, fiquei com medo, foi o que senti, medo.
Tento pensar em algo bom que tenha vivido com o único objetivo de tirar você dos meus pensamentos nem que por breves segundos, mas não consigo. Deixarei o tempo cuidar disto. Lembro-me dos momentos especiais, mas você está em todos. Tento lembrar da vida antes de você, mas resta muito pouco, foi duro encarar a verdade. Verdade que me machuca hoje e que me orgulhei no passado. Eu era feliz, mas para isso precisava estar com você. Fui incapaz de construir uma vida enquanto construía a nossa, você não. Para você eu era uma parte de algo maior: a sua vida.
Seria maduro de minha parte lhe desejar felicidades com seu novo amor, que prefiro chamar de paixão, pois vai passar. Pois bem, não desejo. Espero e desejo com todas as minhas forças que você sofra e implore pelo meu amor e suplique para ser amado por mim novamente. Se fosse o contrario não esperaria compreensão. Como pode alguém amar tanto outra pessoa? Acho que te amei mais do que a mim mesmo, acho que acabei de encontrar o maior erro de minha vida. Será esse o fim de nossa história?
“Acabou!” seco e firme soou isso para mim, “Não posso mais viver assim, eu estou preso e não alcançarei a liberdade com você.” Que merda foi essa? Você quer liberdade? Mal sabe do que está falando, tanto como eu você não é alguém que possa discernir parâmetros para liberdade, nunca teve limites, o que mais quer? Verdade é que somos livres em nosso mundo. Cansou da duce vida de ser uma estrela da sociedade? “O que preciso você não pode me dar.” Não posso e ninguém poderá meu amigo, cabe a você arrancar sua mascara de filho perfeito e mostrar a todos quem você realmente é. Espera que alguém faça isso por você? Você é fraco como eu meu bem, e quando o assunto é este, sabe bem do que estou falando, contrariamos nossa imagem e postura e temos medo. Nossa fama se consiste apenas pela nossa existência e se temos alguma obra somos nós mesmos (isso é muito Lolita Pille, não?). Isso tem um preço. Estamos expostos ao mundo como uma obra de arte pendurada em um museu. Parte disso foi nossa escolha a outra vem com a certidão de nascimento e com os nomes carregamos. Soubemos aproveitar muito bem o que nos foi dado. Brilhamos e acenamos por ai. Gozamos de uma vida e pagamos o preço por ela. Espera que nos separando o brilho não seja tanto? É isso o que quer? Anonimato para suas aventuras? Até pode funcionar, mas um dia você irá voltar ao ninho e as pessoas continuaram sabendo que você é um Beguelli. Pode ate ser pior pois conservaram uma imagem de uma pessoa que não existe mais. Pessoas não gostam de mudanças, dão trabalho e no nosso caso, assunto e fofocas. Quanta dramaticidade, não? Sempre fui o mais dramático, eu assumo. Tudo sempre pareceu tão mais fácil para você.
Não espero resposta para esta carta. Este é apenas o adeus que não foi dito. Não quero vê-lo. Não estou preparado para isso. Sua beleza agora me machuca e seu cheiro é a droga que me vicia e condena. Caso me veja na rua apenas ignore. Serás capaz de atender a este último pedido meu? Creio que tenho o direito.

Adeus,

Guilherme Holscher

ps: quebrei seus óculos.