"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando... Falei, muitas vezes, como um palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria."

Comigo agora

  • Para ouvir - Café del Mar
  • Lendo - The Glass Castel by Jeannette Walls
  • Para Comprar - Mineral Wash Stretch Bull Denim Slim Slack from American Apparel

terça-feira, 14 de julho de 2009

Àos principes e princesas, os verdadeiros ta!?



Para príncipes e princesas,

Um dia uma amiga viu um príncipe, ao menos ele parecia um. Uma carteira recheada, um belo sorriso, um corpo onde cicatrizes seriam marcas sagradas afim de santificar o belo moço. E botem belo nisso, o rapaz era polido. Mas essa historia não teve o final esperado, ao menos não para um conto com príncipes e princesas, garanto desde já não testemunhamos nenhum drama com mocinhos e mocinhas suicidas, nem mesmo uma lagrima foi gasta, para isso seria preciso que o doce sentimento de ilusão e fantasia provado por eles no começo fossem transformados em um amor sublime ou em um ódio amargo.
Vejam bem, não estamos em uma terra encantada, não vejo fadas vindo com olhares esperançosos, os pássaros ao invés de cantar literalmente cagam em nossas cabeças, não há só pureza, simplicidade e magia, o bem e o mal não são devidamente separados a primeira instancia, onde príncipes e princesas são louvados enquanto dançam a valsa do final feliz. Pelo menos é ai que suas historias terminam para nós? No baile, consagração do desejo e o “felizes para sempre”.
De inúmeras duvidas que surgem em minha cabeça, uma delas é impossível ignorar a cada “projeto real”que cruza meu caminho: como seria viver assim? Feliz para sempre! O que sentimos quando encontramos de fato o amor ideal, a alma gêmea. Sinceramente, parece-me tudo um tanto quanto monótono. Teríamos nos acostumados com os conflitos sócios culturais que nos são impostos, com nosso super individualismo crescente a cada década, com a luta sem fim pela busca da felicidade plena que somos incapazes de nos encantar como crianças quando ouvimos o feliz para sempre? Teríamos nos medo desse momento? Afinal o que faremos depois? Ate mesmo me pergunto se somos capazes de ouvi-lo, entendem?
Mas voltamos a minha amiga e seu príncipe louro, sim até loiro ele era. Devem estar se perguntando o que aconteceu não é? Pois bem, pasmem: O PRINCIPE VIROU SAPO! Mais um castelo de área desmoronado pelo tempo, e olha que esse durou pouco. Talvez o culpado de tudo seja a falta das características de seu mundo ai aqui no nosso, por aqui castelos são mais freqüentes em praias onde são moldados por mãos de crianças ainda encantadas pela vida, e esse encanto de atração gravitacional pelo mocinho e mocinha , definitivamente, só exista ai mesmo. Aqui as coisas são diferentes, temos que ir a luta, encarar cada projeto de príncipe um a um. Há quem diga que as coisas por aqui não andam lá muito bem, que esta tudo do avesso, so lhe digo uma coisa, a “realeza” definitivamente esta, pererecas e sapos se rebelaram vestindo mascaras encantadoras, fazer o que? O jeito é beijar e ver no que da. como minha amiga, encarar o sapo, rir do desencantamento, afinal não há mais motivos para chorar, como disse não ódio nem rancor, só mesmo desapontamento pela não correspondência do que se anseia. Voltando ao beijo, porque depois dele temos um problema: dependendo da alma humana príncipes sempre serão sapos, isso devido a uma coisa que eu não sei bem como chamar, acho que podemos chamar de descrença mesmo sabe? Também não podemos esquecer os príncipes e princesas brincando de ser sapos e pererecas.
Enfim, viram como as coisas por aqui não andam muito fáceis? Quanto mais o tempo passa mais teorias são jogadas em nossa cabeça. Isso me faz perguntar se a ignorância e a falta de um livre arbítrio para esse assunto em especial não ajudaria um pouco. Pensem bem, vocês príncipes e princesas ai do mundo encantado não tem muita opção não mesmo? Ate porque metade da população falante é bicho e o final já esta escrito. Entre vocês e seus respectivos pares soam canções de amor, atos heróicos, olhares apaixonados. Em meio a nossa batalha por aqui, são interrogatórios, pesquisas detalhadas, observações minuciosas para quem sabe depois nossos príncipes e princesas serem coroados.
Escrevo essa carta só para contar um pouco de como vejo as coisas aqui nesse mundo, tão mais complexo de certa maneira, muito já foi escrito na via contraria. Não pensem que aqui não há lugar para belas historias de amor, na verdade acredito que vivenciamos as mais belas, entre nos e vocês talvez seja o “felizes para sempre” que faça a diferença, como já foi dito por um sábio de nosso tempo “eterno enquanto dure” talvez seja a melhor maneira de terminarmos cada uma de nossas histórias por aqui.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Meninos x Meninas



Nunca neguei meu estado natural. Sejamos francos ser uma menininha deve dar um tanto bom de trabalho. Meninos são simples por natureza, ultimamente procuramos coisas para complicar nossas vidas, mas nada que implique obrigações fisiológicas, tudo não passa de uma corrida estética do novo milênio. É a tal coisa de metroxesualismo a la Beckham.
Deixando de lado as diferenças biológicas, o que mais me agrada em fazer parte desse universo é o seu funcionamento psicológico e social, como diriam as mulheres, o nosso “jeito”.
Meninas brigam. Meninos também. Mas há uma diferença sutil: brigas de mulheres são chatas e escandalosas, quando realmente a coisa fica física vira um show para a platéia, um show cômico convenhamos. Homens socam uns aos outros basicamente por um instinto natural: mostrar de alguma forma sua superioridade, mas há sempre um motivo que normalmente envolve alguma ofensa de caráter moral ou claro, mulheres, a quem discorde e caracterizam tudo como: motivos ridículos. Sim há muitos homens por ai sujando nossa imagem de meninos príncipes e sim, mulheres talvez não seja algo que valha apena uma briga. A quem estufe o peito por um olhar torto de um outro macho a sua fêmea, esses eu já digo que pertencem a uma fase de evolução do homem animal ao homem social, seja la qual for motivos de briga, para ambos os sexos uma coisa temos que encarar: homens ao menos sabem o que estão fazendo, mulheres na grande maioria, criam universos de uma realidade distorcida, e elas mesmas se pedem em suas razões e desarrazoes.
Meninas intrigam em busca da degradação de sua oponente, entenda oponente como quiser, aqui vale tudo queridos, amigas, conhecidas, inimigas, ou seja, mulheres em geral. Quem sempre começa, ou pelo menos na grande maioria das vezes, uma discussão de relação? Elas, acredito ser até mesmo uma necessidade natural . Claro encontramos homens por ai com cabeça de meninas, há sempre exceções, mas aqui estou tentando me prender à massa.
Cinco homens juntos em uma viagem dificilmente acabaram com rancor ou o que prefiro chamar de “preguiça” um do outro. Elas não, sempre chegaram com vários casos de desentendimentos infantis. Percebo que o sexo oposto ao meu tem algo muito semelhante com crianças, querem porque querem, fazem de algo mínimo estrondoso. Contudo não deixaram permanecer a pureza e a simplicidade de achar beleza e diversão nas pequenas coisas.
Outro fato interessante é que problemas de mulheres normalmente são com outras mulheres. Elas não se entendem. Creio que fundo sabem que é melhor atacar antes de serem atacadas. Apenas para elucidar não tenho nada contra as menininhas, pelo contrario, minha vasta cartela de amizades é formada por elas na sua grande maioria, uma verdadeira amizade de sexos opostos é algo fantástico. Mulheres se dão bem com homens que elas não tenham beijado na boca, e isso por um fato simples, por não ter medo de que outra vai tomar o lugar delas, cada um assume seu lugar e pronto, elas se transformam.
Acordei hoje pensando nisso, como é mais fácil e menos cansativo ter um Y em nosso cromossomo. Desde sempre foi. Antes quando os homens detinham maior controle e poder na sociedade. Hoje, mesmo elas tendo se afirmado no mundo como ser produtivo e independente e de igualdade intelectual, ainda são incapazes de alcançar o simples e doce prazer de viver descomplicadamente. Homens acreditam mais neles. Poucas mulheres se atreveriam a ir em uma festa sozinhas. Homens não, eles vão, e são felizes. Entendem? Vejo o dia que depois de tomado todos os postos que os homens já ocuparam nesse mundo as mulheres lutarão para entender o porque que nós não somos tão complicados (pior que na cabeça delas nos somos) mas quando a verdade vier a tona, se é que pode acontecer, o mundo será mais doce (e há quem diga, mais chato!).

(revisão de Patricia Benedetti,mesmo ela não concordando com algumas coisas e dizendo que sabe que eu tenho o sangue dos De La Vega e amo o mundo Maria do Bairro)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Casa nº11

(escritos, por Luca Beguelli e Guilherme Holscher)

Não devemos tentar prever nossas vidas e digo isso como uma afirmação sem nenhuma variável em jogo. Prever mesmo nunca iremos, já que para isso necessitaríamos de dons sobrenaturais e quanto a isso não tenho mais esperanças. Devemos sonhar que tudo pode ser diferente. Isso, sonhe, mas cuidado, não se iluda. Programar sua vida, seus momentos e aventuras, nos leva a um impasse um tanto quanto desagradável: primeiro a falta da surpresa e tudo ser como esperado, uma monotonia desenfreada de uma vida sem dramas, e mesmo se algo inesperado cruzar seu caminho para apimentar a coisa você irá se decepcionar pelo não acontecimento do programado e idealizado. Resta-nos preparar uma bebida e comprar cigarros, pois só nos restará curtir os sagrados e deliciosos minutos de uma doce melancolia. E depois do drama todo? Bem, muita coisa pode acontecer depois dias dramáticos e melancólicos.
Dificilmente acredito que existem regras absolutas, obvio que sabemos que não devemos roubar, matar, nem mesmos nós mesmos - princípios morais difundido pelo tempo - mas até mesmo isso pode chegar a ser posto em cheque dependendo da situação que encontramos. Não existe regra para o sucesso, para a infelicidade, como também não conheço a formula perfeita de como se portar em um velório, nada me deixa mais nervoso do que um velório, e quanto a festas nem ouso começar a falar. Cada vida é uma vida, cada mesa de jantar é cercada por pessoas diferentes, cada velório é de um morto e regras não passam de simples regras, ferramentas que nos são dadas para vencermos uma batalha social diária, mas cabe a cada pessoa como individuo autônomo e dono de uma personalidade especifica saber onde, quando e como usá-las. Não sei bem como cheguei ate aqui, não era bem o que queria dizer, porem me parece interessante, por mais ilógico que pareça para alguns, sei que faltam alguns pontos a serem discutidos no cenário “verdades universais” e “comportamento sociais”, mas acredito que isso será dito cedo ou tarde em alguma das próxima linhas que ousarei escrever aqui. Sim, aguardem "Clichês da vida", quão barato soa isso?
Voltando ao começo disso e tentando fazer com que tudo ao menos pareça fazer sentido, digo o seguinte: no final vamos chegar no mesmo ponto crucial que muito foi alarmado por ai: esqueça o passado, não se importe muito com o futuro e viva o agora, mas só percebi que iria falar disso a poucas linhas atrás quando, parece, encontrei uma linha de raciocínio lógico dentro de mim, portanto tentarei dizer de outra maneira: não programe muito sua vida, pode não valer a pena, dar muito trabalho e ficar melancólica se todo o programado não der certo, ou não, talvez o fracasso de seu planos seja o caminho para sua felicidade e você enxergará que não tinha idéia do que iria lhe fazer feliz, sei que quer ser feliz, ou assim espero prefiro acreditar, mas tal fracasso também pode ser frustrante e te levar a uma depressão. Enfim, deixaremos isso para depois. Enquanto isso, trace um plano B.


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Paris 2006

No começo era apenas uma casa, uma parte de um cenário diário que me foi submetido. Todos os dias eu passava ali após a aula, mas nada acontecia. Eu não esperava que algo acontecesse para a falar a verdade. A casa é linda, velha sim, meio rústica, diria até abandonada, mas bonita, clássica, eu gostava dela. O que me intrigava era o fato de nunca haver ninguém ali, nenhum barulho ou movimento, nada. O seu número era o 11, algo que eu notei sem querer ter notado, apenas notei e depois disso passei a notar sempre. Um dia tirei uma foto do nº11, era de bronze ao meu ver, velho, muito velho, o tipo de velho que parece contar uma historia, e contava. Os números foram levados por um casal de imigrantes russos que se apaixonaram ainda cedo em suas vidas e logo se prometeram um ao outro com o total apoio de ambas as famílias. Quando a família do noivo foi tida como desertora e traidora da pátria o noivado foi oficialmente rompido, porém segundo dizem, nada mudou para os pombos loiros. Eles continuaram a se encontrar as escondidas em um armazém abandonado na ultima rua depois da igreja, na casa de numero onze. Quando finalmente decidiram fugir do país levaram apenas roupas, o pouco dinheiro que haviam guardado para a ocasião, ela algumas jóias de família, e o numero onze, o cúmplice de suas noites de amor, como não o bastante há quem conte que fugiram no dia 11 de agosto, às onze horas da noite, mas nisso não acredito, quanto a resto, verdade ou não, prefiro acreditar.
Quanto aos polacos que um dia chegaram a cidade da luz não sei o que aconteceu, tal historia ouvi do dono do caffe da rua de traz, esquina com o Jardin du Luxemburg, um senhor de barba brancas que se recusava em falar inglês comigo quando meu Francês ainda era tido como um dialeto estranho para aquelas pessoas. Eu acendia um cigarro, ou tentava arduamente lutar contra o vento para conseguir tamanha façanha, quando minha maquina foi parar o chão. Eu fiquei nervoso, não desisto do cigarro, encarei a maquina no chão rezando no intimo para nada de mal a tivesse acontecido, sentei nos primeiros degraus da casa numero 11 e ali fiquei, eu e meu cigarro e minha maquina no chão. Uma brisa fria tomava conta de Paris naquele fim de tarde de outono, vi um jovem casal passar do outro lado da rua, ele a cobrindo do vento, ela segura em seus braços, quis tirar uma foto, mas estava sem minha maquina. Quando a olhei no chão percebo que ela não estava mais sozinha. Um pequeno par de pés estagnados a seu lado. All Stars vermelhos, uma mão, pequena e delicada, alcança meu brinquedo, arrependo naquele segundo por tê-la abandonado durante a queda. Encaro a figura de tênis vermelho e jeans sujo: um menino, praticamente uma criança, olhos castanhos, cabelos claros e lisos caindo em seu rosto. Ela examina o instrumento em suas mãos, me olha sem dizer uma palavra. Ele me fotografa, a Canon não parece algo estranho a ele, vejo que há uma familiaridade com o objeto, ele tira varias poses, eu continuo onde estou, 22 cliques e o filme acaba.

- Jean.
- Luca.
- Você mora ai? Na casa velha de numero 11?
- Não.
- Imaginei. Ninguém mora ai, é assombrada.
- Pelo casal russo?
- Que casal russo?
- Os que trouxeram esse numero 11.
- Não sei nada sobre isso.
- Como sabe que é assombrada?
- Não sei, imagino que seja, por qual outro motivo ninguém moraria aqui?
- Não faço a menos idéia.
- Fotografo?
- Eu? Não.
- Imaginei. Nenhum fotografo deixaria sua maquina jogada em uma sarjeta.
- você?
- Eu o que?
- É fotografo?
- Eu tenho onze anos, não posso ser nada ainda, sou um menino de onze anos que vai pra escola e tira fotos com velhas câmeras de meu avo.
- Devem ser boas fotos.
- Por quê?
- Por que não seriam?
- Por que seriam? Você nem me conhece.
- Talvez pelo All Star vermelho.
- Talvez. Quantos anos você tem?
- 25.
- Velho.
- Obrigado.
- Isso não foi um elogio, apenas um comentário.
- Bem, eu me sinto velho às vezes.
- Meu avô aos oitenta e sete anos não se sentia velho.
- Quem sabe ate lá eu rejuvenesça.
- Boa sorte então.
- Obrigado.
- Vou tirar fotos em uma feira de ambulantes em uma praça amanhã. Se quiser ir me encontre aqui ao meio dia.
- Você tem mesmo 11 anos?
- Faz alguma diferença?
- Creio que não.

O garoto saiu sem presa. Virou para trás uma única vez onde deu seu primeiro sorriso. Parece um menino bom, do tipo que não se encontra por ai. Pensei em Antonio e se um dia ele seria assim, despreocupado com a vida, ligado ao mundo. Senti saudades, volto para casa o mais rápido que posso. Minha criança brinca com almofadas e scarfs espalhadas pelo chão, como se mundo lá fora não houvesse. G. o observa entre uma pagina e outro de um livro empoeirado.

Um Segredo


Julho 1997

G. dormia na sala enquanto eu tentava ligar para minha mãe pela quinta vez. Estava quente na cidade, no dia anterior tínhamos feito uma pequena trip a Orlando e voltamos cheios e Plutos e Patetas que não iriam caber em nossas malas - fato que os bichinhos iriam ficar por lá mesmo. Estávamos há duas semanas e meia em Miami, eu já estava moreno, minhas malas estavam cheias e nosso tempo estava acabando. Falo com Alexandre, meu primo, segundo ele meus pais estão na fazenda em Goiás. Para nossa ultima semana de férias o combinado era encontrarmos minha mãe em Nova Iorque.

Acordamos cedo naquele dia, não estava gostando muito da idéia de deixar Miami, passamos semanas calmas ali: praia, sol, piscina e compras. Naquele dia ouvi que Gianni Versace havia sido assassinado em frente sua casa em Miami Beach. Pouca importância dei ao fato. Na cozinha iluminada pelo sol da manha eu tomava a ultima garrafa de suco de laranja e G. comia o ultimo pedaço de um bolo de chocolate que havíamos comprado dois dias atrás enquanto falava com sua mãe.

- Minha esta em Milão.

Ele me conta inconformado.

- Fazendo o que?

- Velório de Versace.

- Vai ser em Milão?

- Não sei. Sei que ela esta lá e quer que eu vá .

- E você não vai?

- Não.

- Minha mãe deve chegar amanhã de manhã em Nova Iorque se tudo for como o planejado, não consigo falar com ela.

- Pouco importa, vamos hoje mesmo assim.

- Temos que pegar o avião ao meio dia.

- O que quer fazer até lá?

- Compras? Merecemos uma despedida.

- Agente não devia comprar tanta coisa com nossa idade.

- Porque não?

- Não somos normais somos?

- Somos o que somos e está bom do jeito que está.

- Versace? Uma pequena homenagem ao homem.

- Agente foi lá semana passada.

- Voltaremos antes do previsto.

De malas feitas saímos para nosso ultimo tur por Miami. O carro para em frente à loja da Versace na Washinton Av. 755. Ao meio dia estávamos embarcando em um pequeno avião que Andrea tinha arrumado para nós.

- Me conta alguma coisa que eu não sei.

G. olhava pela janela contemplando as ultimas visões do balneário. Não sei o que poderia contar a ele, perguntei a mim mesmo meus segredos.

- Não tenho muitos amigos. Acho que canso das pessoas, mas tenho medo de ficar sozinho.

- Isso não é novo.

- Não?

- Que você cansa das pessoas? Não para mim. Só uma coisa te faz simpático: sua fama de ser simpático, difundida mais pelas mães de seus “amigos” do que pelos seus amigos propriamente dito.

- Pensarei nisso.

Pulo para sua poltrona. Somos só nós naquele simpático avião que Andrea arrumou sabe-se Deus como. Eu sento no braço da poltrona tentando ver a mesma vista que ele via.

- Eu não conheço meu pai.

Ele não olha para mim, acompanha um amontoado de nuvens brancas brilhosas pelo sol da tarde.

- Como não? Eu conheço seu pai.

- Meu pai não é meu pai.

Ele parece envergonhado. Em seus olhos não há tristeza, existe um pesar, um vazio que ele não compartilha com ninguém. Não fiz perguntas, esperei uma historia que sabia estava por vir. Ele olha perdido pelo avião vazio. Quando me encontrou novamente começou a falar.

- Minha mãe tinha dezoitos anos quando engravidou. Estava começando a ficar famosa. Foi em Milão que ela conheceu um tal “booker italiano”, é assim que ela se refere a ele, sem muitos detalhes . Minha mãe era a estrela em ascensão e ele a queria para ele. Foi na festa de Ricardo Gay na Nepenthe, amor a primeira vista. Eles foram morar em Roma, em maio de 1981 ela descobriu que estava grávida.

- E ela nunca te falou o nome?

- Túlio, e tudo que sei sobre ele. Nunca procurei saber mais do que isso.

- Nunca quis saber?

- Desnecessário. Quando minha mãe descobriu que estava grávida ele foi a primeira pessoa a saber. Ela estava feliz, ligou para ele animada. Ele queria holofotes, fama, era isso que ele esperava dela. Não uma criança. Podia ser o fim de sua carreira. Sem pensar duas vezes ela o largou e voltou ao Brasil, prometeu que jamais o procuraria novamente e foi morar com minha avó, em Novembro eu nasci, em Agosto de 1982 agente já estava em Nova Iorque e ela desfilando. Durante cinco anos foi assim, eu e ela, de desfile em desfile. Ela me conta dessa época orgulhosa, disse que foram os melhores anos de sua vida, eu e ela desfilando pelo mundo, queria poder lembrar mais. Em 1987 ela conheceu meu pai, o que você conhece, no ano seguinte já estavam morando juntos e em 89 se casaram em Paris, moramos um ano em Nova Iorque antes de voltar a São Paulo. A agência já existia no papel e minha mãe tinha cinco modelos trabalhando para ela. Os próximos anos eu fiquei em São Paulo e eles saíram pelo mundo. Hoje são o que são e eu sou o que sou. Quanto ao booker italiano, aparentemente ninguém sabe dele, foi esquecido com o tempo.

- Garanto que ele não esqueceu.

- Minha mãe disse que nunca mais soube dele, acho estranho ele nunca mais ter procurado por ela. Se ele queria fama e dinheiro, hoje ele deveria estar rastejando por perdão. E mesmo se nada ele quiser dela ou de mim, como eles nunca se esbarraram em nenhum evento pelo mundo? Ele não é booker? Eles estão em toda parte.

- Estranho é, mas pelo visto é uma historia enterrada para sua mãe e ele, só você pode começar um novo capitulo.

- As vezes você não fala como alguém da sua idade.

- Minha mãe sempre diz isso – o silêncio que segue sei que não será interrompido pelo meu amigo, ele esta se perdendo em pensamentos deslocados, perdido em seus própria raiva, medo e desejo. – Nunca vi fotos de você e sua mãe nessa época nômades pelos mundo.

- Temos algumas, ano passado ela começou a organizar um álbum, nunca terminou, mas as fotos estão guardadas em uma caixa em seu closet. Ela disse que eu vomitei leite azedo na Cindy Crawford.

Ele esbugalha seus olhos verdes fazendo cara de menino levado, cara conhecida por todos que o cercam, cara que ele consegue tudo o que quer. Rimos muito na próxima hora enquanto ele me contava historias que ele havia ouvido de sua mãe dessa época em que eles viveram juntos, vinte e quatro horas por dia. Minha imagem de Paola mudava a cada segundo, a cada minuto, a cada palavra que Guilherme soltava, sempre a crucifiquei pela maneira que levava a relação com o filho, nunca duvidei de seu amor, e sempre me surpreendi com a maneira que G. olhava para ela, mas agora eu começava a admirar, não só como a mulher de negócios e modelo que é, mas como mãe. Comecei a entender como G. a via. Ele falou de Claudia Schifer, Noami Campbell, Stephanir Seymour, Linda Evangelista, Christy Turlington, Paulina Porzkova e claro Cindy Crawford, os grandes nomes da passarela que acompanharam sua mãe pelo mundo. Nunca tinha percebido o quanto G. sabia sobre aquilo tudo, ele falava de um mundo que eu não conhecia, mas que ele havia vivido sua vida inteira.

Aos treze anos ele foi para Canes com sua mãe. Seu pai João ficou em Nova Ioque enquanto Paola e ele desfrutavam do glamour do balneário Frances. Enquanto sua mãe marcava presença em festas e lançamentos dos filmes, ele ficava no iate de um grande amigo da família, um maguinata grego com muitos empregados, era assim que ele lembrava do homem, alguém com muitos empregados. Em uma tarde quente, G despiu sua roupa e pulou sem medo no mar. Diz que lembra da sensação das bolhas de ar subirem pelo seu corpo enquanto ele afundava e do conseqüente desespero crescente que o acompanhava quanto mais ele demorava para subir a superfície. Quando finalmente conseguiu respirar novamente, ele estava tão próximo do casco do barco que seu tamanho o assustou, ele começou a chorar, suas pernas cansaram e ele afundava a cada poucos minutos. Ele ouvia vozes, barulhos de motores enquanto submerso. Lembra que foi a primeira vez em que sentiu medo da morte. Foi salvo por um dos muitos empregado do barco do maguinata grego. Ele implorou segredo para seu salvador, não se lembra do nome de seu herói, sua mãe não sabe que quase perdeu um filho e G continua pulando do topo mais alto de todos lugares que encontra. Creio que ele gosta da sensação das bolhas de ar subindo pelo seu corpo.

Duas horas de vôo e aterrissamos no JFK em Nova Ioque. Um carro da agencia esperava por nos com um simpático motorista. Fomos direto para o apartamento de G na 82th Streer, Uper East Side, entre a 5th e a Park Av. A secretaria de Paola esperava por nos, elas nos levou a um mercado a poucas quadras dali na 3th av, G e eu sempre gostamos de ir a mercados, adoro as sacolas de saco de pão americanas, compramos muito sorvete. De volta ao apartamento nos jogamos em uma grande cama de casal no quarto de Paola, ligamos TV, o ar condicionado e dormimos durante dez horas seguidas, acordei na madrugada com fome, busquei um pote de sorvete de morango, duas colheres e uma garrafa de água, vimos um pedaço de um filme Frances que não entendíamos nada, voltamos a dormir e só acordamos com minha mãe da na beira da cama, balançando meu pé, sorrindo, já era dia.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

1997 Dias seguintes ao primeiro

Eu sempre soube que não deveriamos esperar muito por algo. Fantasiar futuros acontecimentos pode contribuir muito para uma decepção geral. Será que um dia teremos a realidade superando nossos sonhos?
O tal dia seguinte depois do meu primeiro dia no colégio novo chegou. Dormi pouco a noite, ate as duas da manha já havia repassado meu próximo dialogo com o menino que não saia do meu pensamento, as três eu ja estava discutindo comigo mesmo, ou quem sabe com ele em meus pensamentos, nosso destino para as férias de Julho, pensando em Paris eu dormi. O som permaneceu ligado, acordei as seis e meia da manha com o despertador berrando, Rosa batendo no meu quarto e “Califórnia Dreamin – The mamas and the papas”, parte da trilha sonora de Forest Gump, um bom CD, musica irritante pela manha na verdade, mas isso é apenas um detalhe insignificante que lembrei. Levantei e abri a cortina como de costume. Quinze minutos de banho, cinco para trocar de roupa, não há muito o que escolher, na verdade nunca tive paciência para dedicar muito cuidado ao trato matinal, ainda mais para ir ao colégio, mesmo agora.
Passo alguns minutos sentado no quinto tijolo da escada em frente ao portão de entrada, ele não aparece, penso se ele já não esta na sala, dormindo, desenhando no caderno ainda em branco ou me esperando no mesmo lugar do dia anterior. Ele não esta na sala, sento em meu canto como no dia anterior, abro meu caderno e rabisco desenhos mal feitos. Uma hora se passa e desisto de contar com a presença do garoto.
O dia seguinte promete ser uma reprise do dia anterior, que um dia foi o “dia seguinte” que tanto esperei, ainda pensava naquele que jurei iria ser alguém especial em minha vida. Sigo meus instintos, encaro a vida, cansado de esperar por um reencontro, resolvo promove-lo.
Volto do colegio com meu primo, vou almoçar na casa dele, ouço noticias de Pedro ( meu outro primo que havia se mudado para Londres), vejo TV e arrumo uma desculpa qualquer para ir embora. Antes disso dou uma vasculhada na lista telefônica, procuro Paola Holscher, esse é o nome da mãe de Guilherme. Não tenho muito sucesso. Ligo então para Andrea, secretaria do meu pai, ela sempre consegue tudo que precisamos.

- Beguelli & Heiweck , Andre....
- Andréia sou eu.
Andrea é uma pessoa feliz e sempre demonstra sua empolgação ou “preguiça” após percebe com quem ira começar uma conversa. Ela parece empolgada.
-Luca! Tudo bem querido? Há quanto tempo.
- Nada mal. Preciso de um favor.
- Diga.
- Tem esse menino que estuda comigo, Guilherme Holscher..
- Filho da Paola?
- Por quê? Você a conhece?
- Eu e o mundo inteiro. Que tem ele?
- Preciso saber onde ele mora.
- Ligue e pergunta, pode funcionar.
- Jura?
- Mas você não tenha o telefone, se não já teria ligado.
- Exato.
- Vou ver se consigo alguma coisa, não deve ser difícil.
- Mas eu preciso para agora.
- Agora? Ótimo, vou ver se ela tem conta aqui no banco ai acesso o banco de dados e consigo algo para você.
- Ótimo. Estou aqui na tia Raquel.
- Já te ligo.

Vinte minutos depois Andrea telefona com dados em mãos. Aparentemente, depois de constar que o endereço do banco de dados do banco era da agencia de Paola e não da casa dela, Andrea teve a brilhante idéia de ligar no colégio e conseguir a informação ao invés de burlar as regras de política do banco e vasculhar por informações de nossos clientes. Com endereço em mãos, faço meu primo me levar ate lá, sei bem que isso vai me custar algo mais tarde.
Guilherme mora em um prédio nos Jardins, não muito longe de minha casa eu acho, minha noção de espaço não é muito boa para ser sincero.O porteiro me deixa entrar sem muitas perguntas. No lob do prédio, chão de mármore branco, não era um prédio antigo, a decoração e o elevador moderno dizem isso. Pergunto por Guilherme e o senhor de uniforme, nada muito simpático para falar a verdade, mostra-se ser um homem de poucas palavras. Uma senhora chega sorrindo, muito elegante, clássica bolsa Chanel preta e vai direto para o elevador que já esta no térreo. Sorrio para a dona e entro com ela no elevador. O porteiro mostrou-se querer se importar com minha “invasão”, mas creio que não viu muito perigo em minha figura e simplesmente ignorou minha presença.

- Nunca o vi por aqui, morador novo?
Pergunta a senhora de cabelos feitos.
- Não senhora, vim visitar um amigo.
- Décimo oitavo, o filhos dos Holscher? Muito simpático o garoto, estudam juntos?
- Sim estudamos.
Décimo primeiro andar, a porta se abre e mostra um grande vaso com plantas estranhas e coloridas no lob do apartamento da senhora do elevador.
- Tchau, foi um prazer.
- Tchau.

Com o elevador vazio me encaro no espelho, como acredito todo ser humano faz. Existe algo mais irritante que elevador sem espelho? A porta se abre e me deparo com um hall vazio, a não ser pela mandala desenhada no piso de mármore e uma porta de madeira trabalhada. Não há numeração. Toco campainha, uma jovem senhora, diria uma senhora de quarenta e poucos anos meio rechonchuda me atende.
- Pois não?
Ela mostra um grande sorriso e cheira a comida feita em casa.
- Oi!
Penso se realmente deveria estar ali.
- Oi?
Ela pensa “quem é você?” e “o que você quer?”
- O Guilherme está?

- Esta sim, no quarto. Provavelmente deve estar dormindo. Fique a vontade. Cansei de falar para ele sempre me avisar quando chamar um amigo, não gosto de ser pega de surpresa sabe, não tenho nem sequer um lanche preparado. Digamos que a tal senhora gosta de falar, não sabia a quem ela dirigia aquelas palavras, escutei calado.
- Não se preocupe, e ele não sabia que eu viria.
- Não sabia? Espero que seja amigo dele então. Pode seguir reto, é a ultima porta do corredor.
- Obrigado!
- Eu sou Maria, qualquer coisa é só chamar.
- Luca!

A porta esta fechada, tento uma batida tímida, nada. Imagino que ele realmente deve estar dormindo, abro por conta própria e entro. Por alguns minutos arrependo me minha iniciativa solidaria de vir vê-lo, mas não durou muito. Ele esta na cama, cuecas brancas, lençóis chumbo, posso ver suas costas, pele clara. Fico o olhando esperando que ele acorde, mas nem um músculo se move. Ele dorme de bruços. Olho pelo quarto tentando me familiarizar com o lugar, uma parte da parede perto a entrada do closet é coberta de recortes de revistas e fotos. Em uma delas ele esta ao lado de sua mãe na beira do Sena em Paris, tenho uma foto como essa, eu e minha mãe, imagino se um dia teremos uma: eu e ele.
Ando pelo quarto, me sinto bem ali. Quero acordá-lo mas algo me impede de tomar uma atitude, afinal mal o conheço. Sento na cadeira frente a uma escrivaninha de madeira.
“Acorda! Acorda! Acorda!” escrevo em um convite verde que esta na minha frente.

- O que você esta fazendo aqui?
Não me assusto, ainda estou de costas e penso se ele realmente sabe quem esta em seu quarto, fico feliz em ver que meu apelo funcionou.
- Você parecia mais simpático no outro dia.
- Eu sou simpático.
- Eu não me importo.
- Eu estava com febre.
- febre? Estava ou esta?
- Que eu estava eu estava se ainda estou não sei.
- Quer fazer alguma coisa?
- Não saio de casa por nada.
- Filme?
- E bolo de chocolate.
- Bolo de chocolate?
- Sou chocólatra.
- Eu não.
- Ótimo. Não tenho filmes.

Ele se levanta e vai ao banheiro. Eu olho suas fotos por mais alguns instantes. Escuto o chuveiro ligar, vou ao banheiro, sento-me na pia e começamos a falar. O tempo passou rapido, onze horas da noite minha mãe liga preocupada pois tinha descoberto que eu não estava na casa de minha tia. João me busca. O dia foi bom, calmo, me senti em paz. No proximo ele iria me pegar em casa para irmos para o colegio. Nunca chegamos a ver uma aula naquele dia. Andamos pela cidade. Fomos ao MASP, almocamos no Mercadao e tomamos sol na piscina da minha casa. Ele dormiu por la mesmo, seus pais estavam em Nova Iorque trabalhando. No resto da semana encaramos nossa obrigacao de estudantes. Meses se passaram sem eu notar. Em Julho fomos para apartamento de G. em NY. Acabamos a temporada em sua casa em Miame. Foi bom. Trinta dias descobrindo um pedaço do mundo juntos. Eventos interessantes aconteceram.