Julho 1997
G. dormia na sala enquanto eu tentava ligar para minha mãe pela quinta vez. Estava quente na cidade, no dia anterior tínhamos feito uma pequena trip a Orlando e voltamos cheios e Plutos e Patetas que não iriam caber em nossas malas - fato que os bichinhos iriam ficar por lá mesmo. Estávamos há duas semanas e meia em Miami, eu já estava moreno, minhas malas estavam cheias e nosso tempo estava acabando. Falo com Alexandre, meu primo, segundo ele meus pais estão na fazenda
Acordamos cedo naquele dia, não estava gostando muito da idéia de deixar Miami, passamos semanas calmas ali: praia, sol, piscina e compras. Naquele dia ouvi que Gianni Versace havia sido assassinado em frente sua casa
- Minha esta em Milão.
Ele me conta inconformado.
- Fazendo o que?
- Velório de Versace.
- Vai ser em Milão?
- Não sei. Sei que ela esta lá e quer que eu vá .
- E você não vai?
- Não.
- Minha mãe deve chegar amanhã de manhã
- Pouco importa, vamos hoje mesmo assim.
- Temos que pegar o avião ao meio dia.
- O que quer fazer até lá?
- Compras? Merecemos uma despedida.
- Agente não devia comprar tanta coisa com nossa idade.
- Porque não?
- Não somos normais somos?
- Somos o que somos e está bom do jeito que está.
- Versace? Uma pequena homenagem ao homem.
- Agente foi lá semana passada.
- Voltaremos antes do previsto.
De malas feitas saímos para nosso ultimo tur por Miami. O carro para em frente à loja da Versace na Washinton Av. 755. Ao meio dia estávamos embarcando em um pequeno avião que Andrea tinha arrumado para nós.
- Me conta alguma coisa que eu não sei.
G. olhava pela janela contemplando as ultimas visões do balneário. Não sei o que poderia contar a ele, perguntei a mim mesmo meus segredos.
- Não tenho muitos amigos. Acho que canso das pessoas, mas tenho medo de ficar sozinho.
- Isso não é novo.
- Não?
- Que você cansa das pessoas? Não para mim. Só uma coisa te faz simpático: sua fama de ser simpático, difundida mais pelas mães de seus “amigos” do que pelos seus amigos propriamente dito.
- Pensarei nisso.
Pulo para sua poltrona. Somos só nós naquele simpático avião que Andrea arrumou sabe-se Deus como. Eu sento no braço da poltrona tentando ver a mesma vista que ele via.
- Eu não conheço meu pai.
Ele não olha para mim, acompanha um amontoado de nuvens brancas brilhosas pelo sol da tarde.
- Como não? Eu conheço seu pai.
- Meu pai não é meu pai.
Ele parece envergonhado. Em seus olhos não há tristeza, existe um pesar, um vazio que ele não compartilha com ninguém. Não fiz perguntas, esperei uma historia que sabia estava por vir. Ele olha perdido pelo avião vazio. Quando me encontrou novamente começou a falar.
- Minha mãe tinha dezoitos anos quando engravidou. Estava começando a ficar famosa. Foi em Milão que ela conheceu um tal “booker italiano”, é assim que ela se refere a ele, sem muitos detalhes . Minha mãe era a estrela em ascensão e ele a queria para ele. Foi na festa de Ricardo Gay na Nepenthe, amor a primeira vista. Eles foram morar em Roma, em maio de 1981 ela descobriu que estava grávida.
- E ela nunca te falou o nome?
- Túlio, e tudo que sei sobre ele. Nunca procurei saber mais do que isso.
- Nunca quis saber?
- Desnecessário. Quando minha mãe descobriu que estava grávida ele foi a primeira pessoa a saber. Ela estava feliz, ligou para ele animada. Ele queria holofotes, fama, era isso que ele esperava dela. Não uma criança. Podia ser o fim de sua carreira. Sem pensar duas vezes ela o largou e voltou ao Brasil, prometeu que jamais o procuraria novamente e foi morar com minha avó, em Novembro eu nasci, em Agosto de 1982 agente já estava
- Garanto que ele não esqueceu.
- Minha mãe disse que nunca mais soube dele, acho estranho ele nunca mais ter procurado por ela. Se ele queria fama e dinheiro, hoje ele deveria estar rastejando por perdão. E mesmo se nada ele quiser dela ou de mim, como eles nunca se esbarraram em nenhum evento pelo mundo? Ele não é booker? Eles estão em toda parte.
- Estranho é, mas pelo visto é uma historia enterrada para sua mãe e ele, só você pode começar um novo capitulo.
- As vezes você não fala como alguém da sua idade.
- Minha mãe sempre diz isso – o silêncio que segue sei que não será interrompido pelo meu amigo, ele esta se perdendo em pensamentos deslocados, perdido em seus própria raiva, medo e desejo. – Nunca vi fotos de você e sua mãe nessa época nômades pelos mundo.
- Temos algumas, ano passado ela começou a organizar um álbum, nunca terminou, mas as fotos estão guardadas em uma caixa em seu closet. Ela disse que eu vomitei leite azedo na Cindy Crawford.
Ele esbugalha seus olhos verdes fazendo cara de menino levado, cara conhecida por todos que o cercam, cara que ele consegue tudo o que quer. Rimos muito na próxima hora enquanto ele me contava historias que ele havia ouvido de sua mãe dessa época em que eles viveram juntos, vinte e quatro horas por dia. Minha imagem de Paola mudava a cada segundo, a cada minuto, a cada palavra que Guilherme soltava, sempre a crucifiquei pela maneira que levava a relação com o filho, nunca duvidei de seu amor, e sempre me surpreendi com a maneira que G. olhava para ela, mas agora eu começava a admirar, não só como a mulher de negócios e modelo que é, mas como mãe. Comecei a entender como G. a via. Ele falou de Claudia Schifer, Noami Campbell, Stephanir Seymour, Linda Evangelista, Christy Turlington, Paulina Porzkova e claro Cindy Crawford, os grandes nomes da passarela que acompanharam sua mãe pelo mundo. Nunca tinha percebido o quanto G. sabia sobre aquilo tudo, ele falava de um mundo que eu não conhecia, mas que ele havia vivido sua vida inteira.
Aos treze anos ele foi para Canes com sua mãe. Seu pai João ficou
Duas horas de vôo e aterrissamos no JFK
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