"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando... Falei, muitas vezes, como um palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria."

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Um Segredo


Julho 1997

G. dormia na sala enquanto eu tentava ligar para minha mãe pela quinta vez. Estava quente na cidade, no dia anterior tínhamos feito uma pequena trip a Orlando e voltamos cheios e Plutos e Patetas que não iriam caber em nossas malas - fato que os bichinhos iriam ficar por lá mesmo. Estávamos há duas semanas e meia em Miami, eu já estava moreno, minhas malas estavam cheias e nosso tempo estava acabando. Falo com Alexandre, meu primo, segundo ele meus pais estão na fazenda em Goiás. Para nossa ultima semana de férias o combinado era encontrarmos minha mãe em Nova Iorque.

Acordamos cedo naquele dia, não estava gostando muito da idéia de deixar Miami, passamos semanas calmas ali: praia, sol, piscina e compras. Naquele dia ouvi que Gianni Versace havia sido assassinado em frente sua casa em Miami Beach. Pouca importância dei ao fato. Na cozinha iluminada pelo sol da manha eu tomava a ultima garrafa de suco de laranja e G. comia o ultimo pedaço de um bolo de chocolate que havíamos comprado dois dias atrás enquanto falava com sua mãe.

- Minha esta em Milão.

Ele me conta inconformado.

- Fazendo o que?

- Velório de Versace.

- Vai ser em Milão?

- Não sei. Sei que ela esta lá e quer que eu vá .

- E você não vai?

- Não.

- Minha mãe deve chegar amanhã de manhã em Nova Iorque se tudo for como o planejado, não consigo falar com ela.

- Pouco importa, vamos hoje mesmo assim.

- Temos que pegar o avião ao meio dia.

- O que quer fazer até lá?

- Compras? Merecemos uma despedida.

- Agente não devia comprar tanta coisa com nossa idade.

- Porque não?

- Não somos normais somos?

- Somos o que somos e está bom do jeito que está.

- Versace? Uma pequena homenagem ao homem.

- Agente foi lá semana passada.

- Voltaremos antes do previsto.

De malas feitas saímos para nosso ultimo tur por Miami. O carro para em frente à loja da Versace na Washinton Av. 755. Ao meio dia estávamos embarcando em um pequeno avião que Andrea tinha arrumado para nós.

- Me conta alguma coisa que eu não sei.

G. olhava pela janela contemplando as ultimas visões do balneário. Não sei o que poderia contar a ele, perguntei a mim mesmo meus segredos.

- Não tenho muitos amigos. Acho que canso das pessoas, mas tenho medo de ficar sozinho.

- Isso não é novo.

- Não?

- Que você cansa das pessoas? Não para mim. Só uma coisa te faz simpático: sua fama de ser simpático, difundida mais pelas mães de seus “amigos” do que pelos seus amigos propriamente dito.

- Pensarei nisso.

Pulo para sua poltrona. Somos só nós naquele simpático avião que Andrea arrumou sabe-se Deus como. Eu sento no braço da poltrona tentando ver a mesma vista que ele via.

- Eu não conheço meu pai.

Ele não olha para mim, acompanha um amontoado de nuvens brancas brilhosas pelo sol da tarde.

- Como não? Eu conheço seu pai.

- Meu pai não é meu pai.

Ele parece envergonhado. Em seus olhos não há tristeza, existe um pesar, um vazio que ele não compartilha com ninguém. Não fiz perguntas, esperei uma historia que sabia estava por vir. Ele olha perdido pelo avião vazio. Quando me encontrou novamente começou a falar.

- Minha mãe tinha dezoitos anos quando engravidou. Estava começando a ficar famosa. Foi em Milão que ela conheceu um tal “booker italiano”, é assim que ela se refere a ele, sem muitos detalhes . Minha mãe era a estrela em ascensão e ele a queria para ele. Foi na festa de Ricardo Gay na Nepenthe, amor a primeira vista. Eles foram morar em Roma, em maio de 1981 ela descobriu que estava grávida.

- E ela nunca te falou o nome?

- Túlio, e tudo que sei sobre ele. Nunca procurei saber mais do que isso.

- Nunca quis saber?

- Desnecessário. Quando minha mãe descobriu que estava grávida ele foi a primeira pessoa a saber. Ela estava feliz, ligou para ele animada. Ele queria holofotes, fama, era isso que ele esperava dela. Não uma criança. Podia ser o fim de sua carreira. Sem pensar duas vezes ela o largou e voltou ao Brasil, prometeu que jamais o procuraria novamente e foi morar com minha avó, em Novembro eu nasci, em Agosto de 1982 agente já estava em Nova Iorque e ela desfilando. Durante cinco anos foi assim, eu e ela, de desfile em desfile. Ela me conta dessa época orgulhosa, disse que foram os melhores anos de sua vida, eu e ela desfilando pelo mundo, queria poder lembrar mais. Em 1987 ela conheceu meu pai, o que você conhece, no ano seguinte já estavam morando juntos e em 89 se casaram em Paris, moramos um ano em Nova Iorque antes de voltar a São Paulo. A agência já existia no papel e minha mãe tinha cinco modelos trabalhando para ela. Os próximos anos eu fiquei em São Paulo e eles saíram pelo mundo. Hoje são o que são e eu sou o que sou. Quanto ao booker italiano, aparentemente ninguém sabe dele, foi esquecido com o tempo.

- Garanto que ele não esqueceu.

- Minha mãe disse que nunca mais soube dele, acho estranho ele nunca mais ter procurado por ela. Se ele queria fama e dinheiro, hoje ele deveria estar rastejando por perdão. E mesmo se nada ele quiser dela ou de mim, como eles nunca se esbarraram em nenhum evento pelo mundo? Ele não é booker? Eles estão em toda parte.

- Estranho é, mas pelo visto é uma historia enterrada para sua mãe e ele, só você pode começar um novo capitulo.

- As vezes você não fala como alguém da sua idade.

- Minha mãe sempre diz isso – o silêncio que segue sei que não será interrompido pelo meu amigo, ele esta se perdendo em pensamentos deslocados, perdido em seus própria raiva, medo e desejo. – Nunca vi fotos de você e sua mãe nessa época nômades pelos mundo.

- Temos algumas, ano passado ela começou a organizar um álbum, nunca terminou, mas as fotos estão guardadas em uma caixa em seu closet. Ela disse que eu vomitei leite azedo na Cindy Crawford.

Ele esbugalha seus olhos verdes fazendo cara de menino levado, cara conhecida por todos que o cercam, cara que ele consegue tudo o que quer. Rimos muito na próxima hora enquanto ele me contava historias que ele havia ouvido de sua mãe dessa época em que eles viveram juntos, vinte e quatro horas por dia. Minha imagem de Paola mudava a cada segundo, a cada minuto, a cada palavra que Guilherme soltava, sempre a crucifiquei pela maneira que levava a relação com o filho, nunca duvidei de seu amor, e sempre me surpreendi com a maneira que G. olhava para ela, mas agora eu começava a admirar, não só como a mulher de negócios e modelo que é, mas como mãe. Comecei a entender como G. a via. Ele falou de Claudia Schifer, Noami Campbell, Stephanir Seymour, Linda Evangelista, Christy Turlington, Paulina Porzkova e claro Cindy Crawford, os grandes nomes da passarela que acompanharam sua mãe pelo mundo. Nunca tinha percebido o quanto G. sabia sobre aquilo tudo, ele falava de um mundo que eu não conhecia, mas que ele havia vivido sua vida inteira.

Aos treze anos ele foi para Canes com sua mãe. Seu pai João ficou em Nova Ioque enquanto Paola e ele desfrutavam do glamour do balneário Frances. Enquanto sua mãe marcava presença em festas e lançamentos dos filmes, ele ficava no iate de um grande amigo da família, um maguinata grego com muitos empregados, era assim que ele lembrava do homem, alguém com muitos empregados. Em uma tarde quente, G despiu sua roupa e pulou sem medo no mar. Diz que lembra da sensação das bolhas de ar subirem pelo seu corpo enquanto ele afundava e do conseqüente desespero crescente que o acompanhava quanto mais ele demorava para subir a superfície. Quando finalmente conseguiu respirar novamente, ele estava tão próximo do casco do barco que seu tamanho o assustou, ele começou a chorar, suas pernas cansaram e ele afundava a cada poucos minutos. Ele ouvia vozes, barulhos de motores enquanto submerso. Lembra que foi a primeira vez em que sentiu medo da morte. Foi salvo por um dos muitos empregado do barco do maguinata grego. Ele implorou segredo para seu salvador, não se lembra do nome de seu herói, sua mãe não sabe que quase perdeu um filho e G continua pulando do topo mais alto de todos lugares que encontra. Creio que ele gosta da sensação das bolhas de ar subindo pelo seu corpo.

Duas horas de vôo e aterrissamos no JFK em Nova Ioque. Um carro da agencia esperava por nos com um simpático motorista. Fomos direto para o apartamento de G na 82th Streer, Uper East Side, entre a 5th e a Park Av. A secretaria de Paola esperava por nos, elas nos levou a um mercado a poucas quadras dali na 3th av, G e eu sempre gostamos de ir a mercados, adoro as sacolas de saco de pão americanas, compramos muito sorvete. De volta ao apartamento nos jogamos em uma grande cama de casal no quarto de Paola, ligamos TV, o ar condicionado e dormimos durante dez horas seguidas, acordei na madrugada com fome, busquei um pote de sorvete de morango, duas colheres e uma garrafa de água, vimos um pedaço de um filme Frances que não entendíamos nada, voltamos a dormir e só acordamos com minha mãe da na beira da cama, balançando meu pé, sorrindo, já era dia.

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