(escritos, por Luca Beguelli e Guilherme Holscher)
Não devemos tentar prever nossas vidas e digo isso como uma afirmação sem nenhuma variável em jogo. Prever mesmo nunca iremos, já que para isso necessitaríamos de dons sobrenaturais e quanto a isso não tenho mais esperanças. Devemos sonhar que tudo pode ser diferente. Isso, sonhe, mas cuidado, não se iluda. Programar sua vida, seus momentos e aventuras, nos leva a um impasse um tanto quanto desagradável: primeiro a falta da surpresa e tudo ser como esperado, uma monotonia desenfreada de uma vida sem dramas, e mesmo se algo inesperado cruzar seu caminho para apimentar a coisa você irá se decepcionar pelo não acontecimento do programado e idealizado. Resta-nos preparar uma bebida e comprar cigarros, pois só nos restará curtir os sagrados e deliciosos minutos de uma doce melancolia. E depois do drama todo? Bem, muita coisa pode acontecer depois dias dramáticos e melancólicos.
Dificilmente acredito que existem regras absolutas, obvio que sabemos que não devemos roubar, matar, nem mesmos nós mesmos - princípios morais difundido pelo tempo - mas até mesmo isso pode chegar a ser posto em cheque dependendo da situação que encontramos. Não existe regra para o sucesso, para a infelicidade, como também não conheço a formula perfeita de como se portar em um velório, nada me deixa mais nervoso do que um velório, e quanto a festas nem ouso começar a falar. Cada vida é uma vida, cada mesa de jantar é cercada por pessoas diferentes, cada velório é de um morto e regras não passam de simples regras, ferramentas que nos são dadas para vencermos uma batalha social diária, mas cabe a cada pessoa como individuo autônomo e dono de uma personalidade especifica saber onde, quando e como usá-las. Não sei bem como cheguei ate aqui, não era bem o que queria dizer, porem me parece interessante, por mais ilógico que pareça para alguns, sei que faltam alguns pontos a serem discutidos no cenário “verdades universais” e “comportamento sociais”, mas acredito que isso será dito cedo ou tarde em alguma das próxima linhas que ousarei escrever aqui. Sim, aguardem "Clichês da vida", quão barato soa isso?
Voltando ao começo disso e tentando fazer com que tudo ao menos pareça fazer sentido, digo o seguinte: no final vamos chegar no mesmo ponto crucial que muito foi alarmado por ai: esqueça o passado, não se importe muito com o futuro e viva o agora, mas só percebi que iria falar disso a poucas linhas atrás quando, parece, encontrei uma linha de raciocínio lógico dentro de mim, portanto tentarei dizer de outra maneira: não programe muito sua vida, pode não valer a pena, dar muito trabalho e ficar melancólica se todo o programado não der certo, ou não, talvez o fracasso de seu planos seja o caminho para sua felicidade e você enxergará que não tinha idéia do que iria lhe fazer feliz, sei que quer ser feliz, ou assim espero prefiro acreditar, mas tal fracasso também pode ser frustrante e te levar a uma depressão. Enfim, deixaremos isso para depois. Enquanto isso, trace um plano B.
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Paris 2006
No começo era apenas uma casa, uma parte de um cenário diário que me foi submetido. Todos os dias eu passava ali após a aula, mas nada acontecia. Eu não esperava que algo acontecesse para a falar a verdade. A casa é linda, velha sim, meio rústica, diria até abandonada, mas bonita, clássica, eu gostava dela. O que me intrigava era o fato de nunca haver ninguém ali, nenhum barulho ou movimento, nada. O seu número era o 11, algo que eu notei sem querer ter notado, apenas notei e depois disso passei a notar sempre. Um dia tirei uma foto do nº11, era de bronze ao meu ver, velho, muito velho, o tipo de velho que parece contar uma historia, e contava. Os números foram levados por um casal de imigrantes russos que se apaixonaram ainda cedo em suas vidas e logo se prometeram um ao outro com o total apoio de ambas as famílias. Quando a família do noivo foi tida como desertora e traidora da pátria o noivado foi oficialmente rompido, porém segundo dizem, nada mudou para os pombos loiros. Eles continuaram a se encontrar as escondidas em um armazém abandonado na ultima rua depois da igreja, na casa de numero onze. Quando finalmente decidiram fugir do país levaram apenas roupas, o pouco dinheiro que haviam guardado para a ocasião, ela algumas jóias de família, e o numero onze, o cúmplice de suas noites de amor, como não o bastante há quem conte que fugiram no dia 11 de agosto, às onze horas da noite, mas nisso não acredito, quanto a resto, verdade ou não, prefiro acreditar.
Quanto aos polacos que um dia chegaram a cidade da luz não sei o que aconteceu, tal historia ouvi do dono do caffe da rua de traz, esquina com o Jardin du Luxemburg, um senhor de barba brancas que se recusava em falar inglês comigo quando meu Francês ainda era tido como um dialeto estranho para aquelas pessoas. Eu acendia um cigarro, ou tentava arduamente lutar contra o vento para conseguir tamanha façanha, quando minha maquina foi parar o chão. Eu fiquei nervoso, não desisto do cigarro, encarei a maquina no chão rezando no intimo para nada de mal a tivesse acontecido, sentei nos primeiros degraus da casa numero 11 e ali fiquei, eu e meu cigarro e minha maquina no chão. Uma brisa fria tomava conta de Paris naquele fim de tarde de outono, vi um jovem casal passar do outro lado da rua, ele a cobrindo do vento, ela segura em seus braços, quis tirar uma foto, mas estava sem minha maquina. Quando a olhei no chão percebo que ela não estava mais sozinha. Um pequeno par de pés estagnados a seu lado. All Stars vermelhos, uma mão, pequena e delicada, alcança meu brinquedo, arrependo naquele segundo por tê-la abandonado durante a queda. Encaro a figura de tênis vermelho e jeans sujo: um menino, praticamente uma criança, olhos castanhos, cabelos claros e lisos caindo em seu rosto. Ela examina o instrumento em suas mãos, me olha sem dizer uma palavra. Ele me fotografa, a Canon não parece algo estranho a ele, vejo que há uma familiaridade com o objeto, ele tira varias poses, eu continuo onde estou, 22 cliques e o filme acaba.
- Jean.
- Luca.
- Você mora ai? Na casa velha de numero 11?
- Não.
- Imaginei. Ninguém mora ai, é assombrada.
- Pelo casal russo?
- Que casal russo?
- Os que trouxeram esse numero 11.
- Não sei nada sobre isso.
- Como sabe que é assombrada?
- Não sei, imagino que seja, por qual outro motivo ninguém moraria aqui?
- Não faço a menos idéia.
- Fotografo?
- Eu? Não.
- Imaginei. Nenhum fotografo deixaria sua maquina jogada em uma sarjeta.
- você?
- Eu o que?
- É fotografo?
- Eu tenho onze anos, não posso ser nada ainda, sou um menino de onze anos que vai pra escola e tira fotos com velhas câmeras de meu avo.
- Devem ser boas fotos.
- Por quê?
- Por que não seriam?
- Por que seriam? Você nem me conhece.
- Talvez pelo All Star vermelho.
- Talvez. Quantos anos você tem?
- 25.
- Velho.
- Obrigado.
- Isso não foi um elogio, apenas um comentário.
- Bem, eu me sinto velho às vezes.
- Meu avô aos oitenta e sete anos não se sentia velho.
- Quem sabe ate lá eu rejuvenesça.
- Boa sorte então.
- Obrigado.
- Vou tirar fotos em uma feira de ambulantes em uma praça amanhã. Se quiser ir me encontre aqui ao meio dia.
- Você tem mesmo 11 anos?
- Faz alguma diferença?
- Creio que não.
O garoto saiu sem presa. Virou para trás uma única vez onde deu seu primeiro sorriso. Parece um menino bom, do tipo que não se encontra por ai. Pensei em Antonio e se um dia ele seria assim, despreocupado com a vida, ligado ao mundo. Senti saudades, volto para casa o mais rápido que posso. Minha criança brinca com almofadas e scarfs espalhadas pelo chão, como se mundo lá fora não houvesse. G. o observa entre uma pagina e outro de um livro empoeirado.
Comigo agora
- Para ouvir - Café del Mar
- Lendo - The Glass Castel by Jeannette Walls
- Para Comprar - Mineral Wash Stretch Bull Denim Slim Slack from American Apparel
quarta-feira, 15 de abril de 2009
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