"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando... Falei, muitas vezes, como um palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria."

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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Enfim um começo - Por L. Beguelli

Paris, 05 de Março de 2005

Perco-me na noite, a solidão me acompanha, o medo de não achar o paraíso é eterno. Paraíso este inimaginável e indescritível. O que é o paraíso? Como é o paraíso? Não sei e talvez nunca saiba, mas definitivamente o meu está longe do ideal puritano que nos persegue.
Não sou escritor e muito menos poeta, apenas despejo nessas paginas minha vida, tentarei entende-la, onde errei? Apenas peço que não reparem em minha simplória obra. Você nunca pensou em escrever? Nem eu a algum tempo atrás, cerca de dez minutos vislumbrei a minha salvação. Que salvação cristo? Não há salvação, minha única salvação sou eu mesmo, mas o momento é de total desespero e me enterro em meu mundo e tento não pensar em nada, apenas em escrever, ocupa minha mente. Bastou o ócio, uma garrafa de champagne, um laptop, um maço de cigarros e estar a um passo da depressão.

“ A vida é repleta de tristezas: pouco importa o que fazemos, no final todos vamos morrer, cada um de nós esta preso na solidão de um corpo autônomo; o tempo passa e o que passa nunca voltará. A dor é nossa primeira experiência de desamparo no mundo, e ela nunca nos deixa. Ficamos com raiva de sermos arrancados do ventre confortável, e assim que a raiva dissipa, a depressão chega para assumir o seu lugar.”
(“O demônio do meio dia”, Andrew Solomon)

Lembro-me de meu primeiro contato coma tal da depressão. Foi logo em minha primeira seção terapêutica. A sala era grande e havia uma bela janela ao lado da mesa da doutora, seu nome era Maria Paula. O consultório ficava em Higienópolis, num belo sobrado. Apesar das grandes janelas a sala era pesada, cortinas iam ate o chão, aquilo me dava uma sensação de sujeira, me pareciam incrivelmente empoeiradas. Os moveis eram grandes e pesados, de madeira escura e polida, bonitos, mas pesados. O globo era o que me chamava mais atenção, era enorme e sempre quis ter um globo daquele. Eu não gostava daquele lugar, desde o primeiro momento. Sento-me em uma poltrona de couro preta, a moça é mais nova do que imaginava e posso ate mesmo dizer bonita. Gosto de gente bonita. Foram cerca de cinqüenta minutos que para mim não levaram a lugar algum. Minha mãe entra na sala, a tal moça após cinqüenta minutos de perguntas e de ouvir o que eu fiz nos últimos dias, chega a conclusão de que “ seu filho tem tendência a depressão”. Como assim? Este foi meu contato com a depressão.
Registro: o primeiro de muitos.
Durou três meses a terapia, nada que presta saiu de lá. Não sei por que contei isso, apenas me lembrei e foi algo marcante. Ainda hoje não tenho um globo como aquele.
Nota importante: comprar um globo.
O que relatarei aqui é minha vida, nada mais e nada menos, mesmo porque nela já se inclui tudo: meus sonhos e medos, aventuras e decepções.
Para isso devo escolher um começo, eu escolho 1997.
Uma pessoa entra em sua vida e tudo ganha um novo gosto e sentido.

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