"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando... Falei, muitas vezes, como um palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria."

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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Parte 1- 1997- Continuação - Por L. Beguelli

Janeiro 1997


Primeira mudança significante do ano: escola nova.
Conclusão: vida nova


Desço do carro confiante, nunca tive medo do novo. Minha mãe sempre me disse que um dos piores dias de sua vida foi o meu primeiro dia na escola. Eu carregava um pequeno urso de pelúcia quando desci do carro, segundo todos e provas fotográficas, eu nunca me separava daquele urso, o engraçado é que não fosse as fotos não me lembraria dele. Não me lembro do seu cheiro e nem mesmo de sua textura, sei que não era muito bonito, mas devia ser macio e com certeza obediente, devia ser por isso que me apeguei ao pequeno Ted, por sua obediência e falta de vontade própria. Enfim estava eu e o urso descendo do carro, o urso era branco, teoricamente, cor de água suja na verdade, segundo minha mãe desci apressado, sem nem mesmo olhar para traz, eu não me lembro e odeio isso. No meio do caminho Ted caiu dos meus braços, ou terá sido eu quem o libertou? Não importa. Eu continuei, 2sozinho, sem meu fiel escudeiro, minha mãe gritava meu nome. Eu não ouvia, apenas corria em frente. O urso deve ter ido parar nas mãos de alguma criança necessitada que habitam nosso pais. Minha mãe foi parar no divã. Hoje penso que deveria eu ter chorado, gritado que não queria deixá-la, a cena de praxe, parece, não sou como a maioria.
Alguns anos depois lá estava eu descendo mais uma vez do caro rumo ao desconhecido e minha mãe olhando calada, creio que dessa vez ela não esperava a cena. O dia estava quente, disso me lembro, foi ali que tudo começou a mudar. 03 de Fevereiro de 1997.

Começo minha jornada em uma escada, pessoas reencontram-se no portam. Ceninha mais feliz. Soou irônico isso? Achei uma graça a alegria das pessoa e o desprezo total de alguns. Há os perdidos, estes são novatos, assim como eu, mas não estou perdido, afinal sei onde estou. Alguns rostos me são familiares, alguns que conheço por conhecer, por serem irmãos de alguém, amigo de algum primo ou filho de algum conhecido de meus pais. O garoto que forma o centro de uma roda barulhenta ao lado esquerdo do portão, este conheço bem, é Alexandre Beguelli, meu primo. Ele me vê, ele acena. Retribuo, teoricamente acredito que devo me aproximar, mas evito um contato mais próximo. Não quero parecer grosso, mas são sete da manhã e não costumo ser muito simpático nas primeiras horas do dia, enfim, continuo subindo a escada.
38 são os tijolos que existem entre o primeiro degrau e o último. Isso se contato em linha e restringindo seu campo de visão apenas a linha de tijolos a sua frente, ignore a periferia. Chego em um corredor, parece infinito. Sigo em frente, as paredes são de tijolos a vista, do mesmo tipo do da escada que passei a pouco. Ao lado esquerdo temos um pátio com mesas, bancos, uma agradável cantina e canteiros floridos. Há direita, portas e mais portas me fazem lembrar aquelas antigas escolas americanas que vemos em filmes. Encontro um banheiro, entro sem estar com vontade, me olho no espelho, mexo em meus cabelos, faço caretas, ouço alguém entrar e paro com as caretas.
Encaro-me pela ultima vez no espelho do banheiro agora já movimentado por outras figuras. Calça jeans clara, camiseta do colégio, não havia muita opção. Sorrio para a imagem que me acompanhará pelos próximos três anos.
A sala ainda esta vazia. Os poucos que a ocupam estão em silencio. Ambíguo são os sentimentos que nos acompanham nesse momento. O medo do desconhecido e da rejeição lutam fervorosamente com a ansiedade do novo. Fico quieto já que não há nada dizer.
Sinto-me em um verdadeiro campo de batalha. Analiso o terreno e resolvo me acomodar na ultima fileira do lado esquerdo, quinta cadeira.

Observação do relato:
O lado esquerdo está se sobressaindo por hoje, meu primo estava lá em baixo no lado esquerdo da escada, no corredor o lado mais interessante é o esquerdo, saindo do banheiro pisei em um chiclete com o pé esquerdo, e agora resolvo sentar do lado esquerdo da sala. O escolhi por ser o lado esquerdo e inconscientemente no dia de hoje, 03 de fevereiro, estou condicionado a ele, ou simplesmente por que era o mais vazio?


Debruço-me na mesa a espera do inicio de algo. Pessoas entram e saem da sala. Os minutos vão passando e nada me chama a atenção, mas pouca atenção presto a alguma coisa para achar algo ou alguém interessante. A inércia me incomoda profundamente.
Passo a reparar: já existem quatro perto de mim, um muito simpático, disse-me “oi”, um outro que não consigo pré julgá-lo, e mais dois de aparência normal. Penso do porque apenas um de quatro disse oi, primeiramente chego a conclusão obvia, apenas um é simpático, mas depois imagino o contrario. Eu no meu mundo de observador não manifestei-me e quando estava perto de chegar a alguma linha de raciocínio que levasse a algum lugar, algo finalmente chama minha atenção: o menino que sentou ao meu lado. Ele é loiro, seu cabelo ainda está molhado, alguns fios estão grudados em sua testa, quero arrumá-los. Deve ter minha altura, talvez um pouco mais baixo, mas muito pouco. Os olhos são castanhos brilhantes, fortes, lindos. Sua pele parece macia e perfeitamente lisa. Percebo uma pinta no lado esquerdo de sua testa, seu cheiro é bom, cheira a banho recém tomado. Ele me incomoda, talvez por sua beleza, sim ele é bonito demais e eu sei disso, o que me deixa mais incomodado. A sensação é de estar diante de alguém superior a você, alguém que faça valer a pena uma batalha, mesmo que a vitória não seja certa. Queria falar alguma coisa, talvez um oi, mas não digo nada, permaneço na inércia de meus pensamentos.

- Não sei se estou no lugar certo. – ele parece despreocupado, fala para o nada registrando o lugar com seus olhos brilhantes – Ei você! – ele esta me cutucando, não gosto que me cutuquem com o dedo - Sabe se eu estou no lugar certo?
- Como posso saber se você esta no lugar certo se não sei onde você deveria estar?
- Acho que entendi o que você falou. A Andresa disse que estou no lugar certo.
- Se a Andresa disse – voltamos ao silencio.
- Aquela é a Andresa – tinha uma menina perto da porta, sentada quieta, perfeitamente ereta, revirando paginas de um caderno em branco.
- Sua amiga?
- Não, conhecida, estudávamos juntos no outro colégio, é o tipo que sabe onde é o lugar certo.
- Acho que entendi.
- Prazer, sou Guilherme.
- Luca Beguelli.
- Holscher.
- O que?
- Meu nome, Guilherme Holscher, já que você disse o teu completo.
- Eu não disse o meu completo, apenas o primeiro e ultimo.
- Eu só tenho um primeiro e um último, sempre achei que poderia ser maior, gosto de nomes grandes. Beguelli do banco?
- Sim, Beguelli do banco.
- Nunca conheci um antes.
- Um Beguelli do banco?
- Um Luca.
- Já conheci alguns Guilhermes.
- Algum que não tenha gostado, brigado ou mantém algum tipo de ressentimento?
- Não que eu me lembre.
- Ótimo, não seria muito agradável eu ser a fonte de uma lembrança ruim, já que pretendo ser seu amigo.
- Ser meu amigo? – ele ri em silencio.
- Quer ser meu amigo?
- Posso tentar.
- Acho que não temos mais muita escolha.

A sala já está cheia.

Sun Tzu em “A arte da guerra” já dizia que para fazer o inimigo vir de livre e espontânea vontade, deve-se exibir os lucros aparentes. Eu estava tentando, e ao que parece ele também. Começou aqui um processo de atração mutua, eu querendo com que ele me admirasse, e ele querendo com que eu o idolatrasse. Devo dizer, parece funcionar.
O dia chegou ao fim comigo em minha cama pensando unicamente no meu novo amigo, eu estava feliz e ansioso pela próxima manhã.

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