"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando... Falei, muitas vezes, como um palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria."

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quinta-feira, 19 de junho de 2008

Um começo......

Muito ainda há de ser clareado em minhas idéias para que consiga explicitar aqui uma história como merecem receber: com começo, meio e fim. Há algum tempo duas pessoas sugam minhas noites, mas nada ainda está claro.

O que será escrito aqui não passa de mais uma história, mas não garanto uma cronologia convencional.

Começo tudo pelo fim de algo.
A verdade é que gosto de cartas, destas em especial.

Não se trata de uma carta de amor ou odio, apenas uma carta que representa o início de uma nova etapa para duas pessoas que um dia amaram-se acima de tudo.

Como essa história de amor se desenvolveu, bem, para isso teremos tempo.


Por agora deixo dois nomes à vocês:

1. Luca Beguelli

2. Guilherme Holscher

Nomes bastam, não irei descreve-los e analisa-los com meras palavras, isso também deixo a vocês, caso um dia cheguemos a um fim.

PRIMEIRA CARTA - POR GUILHERME HOLSCHER À LUCA BEGUELLI:

20 de Junho de 2004
Paris, França
Minha casa

O irônico é acabar em Paris. Acabar ou começar, isso é uma questão de ponto de vista. Quantos planos fizemos para essa cidade, quantos capítulos de nossa história foram escritos nessas ruas e caffés. Visitei outros lugares, alguns já conhecidos por nós, contudo pareciam novos sem você. Você teria gostado, foi uma bela viajem. Melancólica, mas bela. Por onde passei foi em Paris que me senti amparado, foi onde me senti em paz. Acho que posso construir algo aqui. São Paulo de repente ficou pequena, Nova Iorque não me parece um lar. Outra eram lindas, porém calmas demais e podem vir a ser enfadonhas. Gosto da loucura e do caos da cidade grande. Gosto de ter o que quero e preciso quando quero. Enfim Paris é Paris. Lembro muito de você aqui; os momentos vividos, as aventuras sonhadas. Hoje é uma nova cidade, continua bela e viva, mas não é a mesma sem você. Ela não me traz tristezas, e sim, esperanças, transborda oportunidades e grita por moda, prazer e beleza. Sinto-me vivo e não preso ao passado.
Quer algo novo? Comprei um apartamento! Tenho uma casa agora, minha casa. Comprei um piano também, foi em um antiquário semana passada, mas é certo que ele funciona mais como objeto decorativo do que como instrumento musical propriamente dito, como sabe não toco piano, mas isso não importa. De tudo, o que realmente iria gostar é do meu novo jogo de cristais Swarovski que ganhei de minha mãe no dia em que ela voltou ao Brasil. Acredita que veio ficar duas semanas, sem trabalhar, aqui comigo? Foi bom tê-la por perto. É certo que tudo veio dela, mas os cristais foram embrulhados, realmente um presente. Eu não havia previamente escolhido e nem mesmo comentado meu desejo por eles. Ela simplesmente olhou e achou que eu iria gostar. Simples assim, inesperado como deve ser. Você é bom com presentes. Lembro-me do último que me deu. Você lembra?
Com meus novos cristais montei um bar em cima do piano. As bandejas que completam o cenário foram compradas em mercados pelos quais passei em minha viajem; Paris, Barcelona, Pérsia, Marrocos... Fui também à Índia, lá encontrei as mais belas peças, tão únicas e especiais. Para cada uma me contaram histórias diferentes. Uma delas pertenceu à família de um antigo Sheik e tem mais de cem anos. As garrafas que acompanham as bandejas acredito que possa imaginar quais são. Conhece-me suficientemente bem para isso. Ao lado do piano posso ver a Torre Eilfel, uma bela vista.
Deixarei de lado meu apartamento agora, passarei a parte dramática. Quando me forço a lembrar daquela noite, a noite em que fui obrigado a encarar a verdade, concentro-me nas palavras que foram ditas e nas que não c2onsegui dizer, mas pouco consegui entender, por isso não sei o que sentir.queria poder gritar em seu ouvido, acho que ajudaria dissipar algo aqui dentro. Tão pouco foi dito que talvez tenha perdido algo. No meio de gritos e sussurros faltaram lágrimas, suas lágrimas. Uma imagem não sai de minha cabeça: você parado de costas à janela onde uma pomba branca nos observava, seus olhos fugiam dos meus. Ainda posso ouvir sua respiração forte, sua roupa está clara em minha memória: estava usando as calças que Pedro te deu (aliás, não consigo falar com ele, tentei a semana toda). Naquele exato momento, a pomba me parecia mais familiar, fiquei com medo, foi o que senti, medo.
Tento pensar em algo bom que tenha vivido com o único objetivo de tirar você dos meus pensamentos nem que por breves segundos, mas não consigo. Deixarei o tempo cuidar disto. Lembro-me dos momentos especiais, mas você está em todos. Tento lembrar da vida antes de você, mas resta muito pouco, foi duro encarar a verdade. Verdade que me machuca hoje e que me orgulhei no passado. Eu era feliz, mas para isso precisava estar com você. Fui incapaz de construir uma vida enquanto construía a nossa, você não. Para você eu era uma parte de algo maior: a sua vida.
Seria maduro de minha parte lhe desejar felicidades com seu novo amor, que prefiro chamar de paixão, pois vai passar. Pois bem, não desejo. Espero e desejo com todas as minhas forças que você sofra e implore pelo meu amor e suplique para ser amado por mim novamente. Se fosse o contrario não esperaria compreensão. Como pode alguém amar tanto outra pessoa? Acho que te amei mais do que a mim mesmo, acho que acabei de encontrar o maior erro de minha vida. Será esse o fim de nossa história?
“Acabou!” seco e firme soou isso para mim, “Não posso mais viver assim, eu estou preso e não alcançarei a liberdade com você.” Que merda foi essa? Você quer liberdade? Mal sabe do que está falando, tanto como eu você não é alguém que possa discernir parâmetros para liberdade, nunca teve limites, o que mais quer? Verdade é que somos livres em nosso mundo. Cansou da duce vida de ser uma estrela da sociedade? “O que preciso você não pode me dar.” Não posso e ninguém poderá meu amigo, cabe a você arrancar sua mascara de filho perfeito e mostrar a todos quem você realmente é. Espera que alguém faça isso por você? Você é fraco como eu meu bem, e quando o assunto é este, sabe bem do que estou falando, contrariamos nossa imagem e postura e temos medo. Nossa fama se consiste apenas pela nossa existência e se temos alguma obra somos nós mesmos (isso é muito Lolita Pille, não?). Isso tem um preço. Estamos expostos ao mundo como uma obra de arte pendurada em um museu. Parte disso foi nossa escolha a outra vem com a certidão de nascimento e com os nomes carregamos. Soubemos aproveitar muito bem o que nos foi dado. Brilhamos e acenamos por ai. Gozamos de uma vida e pagamos o preço por ela. Espera que nos separando o brilho não seja tanto? É isso o que quer? Anonimato para suas aventuras? Até pode funcionar, mas um dia você irá voltar ao ninho e as pessoas continuaram sabendo que você é um Beguelli. Pode ate ser pior pois conservaram uma imagem de uma pessoa que não existe mais. Pessoas não gostam de mudanças, dão trabalho e no nosso caso, assunto e fofocas. Quanta dramaticidade, não? Sempre fui o mais dramático, eu assumo. Tudo sempre pareceu tão mais fácil para você.
Não espero resposta para esta carta. Este é apenas o adeus que não foi dito. Não quero vê-lo. Não estou preparado para isso. Sua beleza agora me machuca e seu cheiro é a droga que me vicia e condena. Caso me veja na rua apenas ignore. Serás capaz de atender a este último pedido meu? Creio que tenho o direito.

Adeus,

Guilherme Holscher

ps: quebrei seus óculos.

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