"Se você tivesse acreditado nas minhas brincadeiras de dizer verdades, teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando... Falei, muitas vezes, como um palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que sorria."

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quinta-feira, 19 de junho de 2008

Por Luca Beguelli


Não sei bem o que será de mim. Sempre tive a certeza de estaria protegido, até disso hoje duvido. Posso eu proteger-me de mim mesmo? São momentos que mudam nossa vida e trajetória. esses momentos mudam nosso meio de pensar, de ver as coisas. Coisas acontecem mesmo não devendo acontecer, não temos muito controle sobre o que será. Sonhamos, planejamos, desejamos, mas sonhos são apenas direções, o que irá acontecer nesse caminho, isso meu caro, não podemos prever. Isso acontece porque nossos sonhos se cruzam com os sonhos de outras pessoas. Nossos caminhos se encontram e nesses momentos as vezes perdemos nossa direção até o momento que encontramos um outro sonho por ai de um outro alguém que nos faz lembrar qual é o caminho que devemos seguire lembramos que temos um sonho só nosso. E assim vamos indo, vivendo e sofrendo. Péssima frase esta última eu sei, mas o que posso fazer, não escrevo a muito tempo. Comecei este parágrafo para chegar em algum lugar, momento este que faria algum sentido e eu finalmente continuaria a historia que comecei.
Prometo que depois disso tentarei ser mais fiel a tal coisa chamada cronograma, mas agora tenho que mostrar a vocês uma outra carta, a minha carta. Sim a carta que escrevi a G. em resposta aquela que ele me enviou de Paris. Ainda não consigo entender o porque ele foi parar em Paris. Ele disse, eu sei, mas não entendo, bom, há coisas que não entendemos mesmo.
Estava quente em Praga quando comecei a escrevê-la. O relógio marcava sete e meia da noite, devido ao problema de fusos e ao fato daquele ser meu primeiro dia lá, não sei há que cidade aquele relógio era fiel, mas isso pouco importa. Ainda não havíamos jantado e nem saído do hotel, dormimos muito aquele dia, estava exasto. Sant Tropez havia esgotado minhas energias e figado. Sai do quarto após me trocar. Nate estava no banho, sai sem ele notar. Vocês não sabem quem é Nate não é? Nate é o irmão da Brier. Brier é a moça que meu primo Pedro ficou em Nova Iorque durante a semana de moda daquele ano, 2004. Nate Walker, lindo. Meu novo amiguinho.
Eis aqui a carta:
25 de Julho de 2004
Praga, República Tcheca
Esplanade Prague Hotel


Começo isto com um aviso: não irei rever o que escrevi. O que foi posto no papel não será apagado, isso para você não dizer que eu ensaio coisas. Claro que há ocasiões que é necessário. O tal ensaiar coisas, palavras e atos. Enfim deixe-me começar, mesmo eu já tendo começado algo aqui. Entende como preciso de revisões? Perco-me em mim mesmo.
Estou em um café próximo ao hotel, lugarzinho simpático. Quando acordei sai a procura de um local para escrever esta carta. Precisa de um lugar calmo, creio que precisava mesmo era ficar longe de pessoas conhecidas para eu não ser importunado. Preciso lhe escrever para que eu possa começar a pensar em fazer qualquer outro tipo de coisa.
Quando sua carta chegou em minha casa minha mãe a enviou para mim. Eu estava Sant Tropez, e a li no meio do Senequiê bebendo Don Perigon, não me lembro de qual safra, isso foi há duas semanas. Não sabia iria responder, mas sabia que iria me arrepender se não a respondesse. Todos a minha volta perceberam as feições de minha face mudar quando a li, era inevitável, ao menos as lagrimas consegui segurar. Tentei esquecer o que li naquele momento, afinal não havia nada a ser feito, mas depois, com o excesso álcool, desisti, ficamos mais vulneráveis bêbados não? Dificulta o controle das emoções.
Quando diz que alguns lugares parecem novos sem mim entendo bem, não é diferente comigo. Em Sant Tropez, a suíte do Byblas não me pareceu tão aconchegante como me lembrava, o Grand Joseph, lembra quantas noites passamos nesse restaurante? Parece ter perdido romantismo, sempre o achei tão feito para casais, hoje mais do que nunca. Ambos continuam ótimos, apenas me pareceram diferentes. O Nikki Beach continua o mesmo, não há como mudar concorda? É sempre a mesma explosão de sorrisos e álcool, é o tipo de lugar feito para pessoas como nós extravasarmos nossas alegrias e tristezas, claro sempre sorrindo para todos de preferência, gosto desse lugar. Conhecemos muita gente lá. Encontrei conhecidos e todos fizeram a pergunta que ouço em todos os lugares que vou, “Cadê o Holscher?”. Poucos dias depois de receber sua carta recebi um convite de pessoas que conheci por lá mesmo para uma pequena temporada em Praga, e aqui estou eu. Durante a viagem a reli diversas vezes, Gus ameaçou jogá-la fora, fiquei com muito medo naquela hora. Deve estar se perguntando quem é Gus. Pois bem Gus é primo do Nate, este acredito que se lembras bem quem é.
Fico feliz por sua nova casa, pela cidade que escolheu e que seu sentimento de esperança e oportunidades para uma nova vida o leve caminhos felizes. Creio que Paris, assim como todos os outros lugares que passamos juntos, salve exceções desagradáveis, será sempre nossa quando estivermos juntos. “Sempre teremos sempre Paris”. Quanto aos sonhos e planos que passamos noites programando, não os descarte ainda, algum de nós precisa mantê-los vivos de alguma maneira. O piano deve ser lindo e os Swarovskis deslumbrantes, por isso te peço algo e preste muita atenção: se estiver bebendo algo em algum deles agora, desista e o deixe em cima do piano com suas velhas novas bandejas de prata, seria um desastre quebrar um deles e algo ainda será dito nas linhas que se seguem que podem provocar isso.
Quanto as lagrimas que não viu só posso dizer que elas existiram, mas se foram na noite anterior, quando eu encarei a verdade de nosso mundo. Eu precisava fazer com que você enxergasse também. Antes de mais nada quero dizer que ainda te amo e sempre te amarei, as formas poderão mudar mas nunca sairá de dentro de mim, você faz parte da minha vida e da minha pessoa, e isso será para sempre e que nada do que fiz tem relação direta com o “novo amor”, mesmo porque ele não existe, a paixão talvez, mas posso viver sem ela e provavelmente logo se acabará, você tem razão. O “novo amor” foi apenas a situação que criei para te fazer ir embora, para me distrair, alguém que estava pronto para me levar a algum lugar depois que você se fosse. Precisava que sentisse um pouco de raiva, fui fraco e escolhi o caminho mais fácil ao invés de te mostrar o que se passava dentro de mim. Não procuro um novo amor, ainda tenho um muito vivo aqui dentro. O porque fiz tudo isso? Talvez um dia entenda, queria respirar sem sua ajuda, sorrir sozinho e conhecer coisas e pessoas novas, conhecer o mundo sem você ao meu lado e ate mesmo a dor de estar sozinho, dor essa muito forte no dia de hoje, como precisava de você ao meu lado. Precisávamos nos libertar um do outro e reaprender a nos amar acima de tudo. Estava com medo de viver a vida sem a conhecer por completo, não sei mais o que pensei.
Lembro-me quando nos conhecemos, sua beleza foi o que me chamou a atenção de imediato, mas depois de apaixonei por sua segurança e liberdade. Fazia e dizia o que queria e mesmo assim nunca chegou a humilhar ou desrespeitar alguém, as pessoas te admiravam e desejavam, todos te invejavam, uma inveja boa acredito. Não sou modesto, portanto afirmo que também tinha meu brilho, talvez fosse um pouco mais narcisista que você, mas da minha maneira fazia e conquistava tudo. Nós perdemos isso, fizemos de duas forças uma e nosso brilho passou de existir a coexistir. Precisamos nos achar novamente, resgatar o nosso brilho e essência, éramos parecidos mas completamente diferentes, passamos a ser o mesmo. Eu uma metade e você a outra. Simétricas.
A verdade é que tudo o que pensava ou pensei nos ultimas semanas não importam e nem mesmo sei se fazem mais sentido para mim. Desde ontem tudo mudou. Já disse que o queria ao meu lado? Chega a doer a falta que esta me fazendo. Preciso ouvir de você “esta tudo bem, eu estou aqui”. Às vezes o novo assusta, sei disso, mas esse novo está me matando. Vejo minha vida desmoronar e meus sonhos evaporarem. Forço-me a acreditar que não é o fim, que apenas as coisas irão mudar e que preciso de novos sonhos, sei que é assim, mas ainda é muito cedo para acreditar, não estou nesse passo do processo. Talvez precisasse ouvir de você para acreditar.
Se soubesse o que me esperava provavelmente não teria feito o que fiz com nós e ainda estaríamos juntos, chorando ou quem sabe fazendo comprar para esquecer a realidade. Dei-me conta que ainda não contei o fato de real importância, e isso deve estar te deixando louco, acabarei com sua angustia: Camila está grávida. Ela me disse pelo telefone ontem. Está entrando no segundo mês de gestação, deitado na cama tentei fazer contas, ela pode ter razão. Ela ainda não foi ao médico, ninguém sabe a não ser por poucos escolhidos para nos ajudar a carregar o fardo do segredo, o que inclui Maria Fernanda, Pedro e agora você. Ca disse que tentou falar com você antes de me ligar, estava sem saber como me contar e queria sua ajuda. O que teria dito?
Hoje tenho 22 anos e aos 23 serei pai, como posso estar preparado? Pela primeira vez me sinto impotente perante a vida. Semana que vem voltarei ao Brasil para a festa do banco, é quando pretendemos contar a todos, na verdade não conversamos sobre isso, mas acredito que não há motivos para não contarmos, um dia terão que saber, que seja o mais rápido possível. Será que marcamos um jantar para o dia seguinte a festa? Imagino a reação, acho que não terá desespero, eu e Camila somos o casal sonhado por todos. Vislumbrarão o casamento que para todos estava claro que um dia aconteceria. Eu não quero me casar, eu não posso me casar, afinal sou gay, e essa verdade que precisamos encarar.
Hoje pela manhã me peguei imaginando o que eu feria no banco, sempre esperei pelo dia que entraria por aquela porta, nunca pude me ver lá dentro. Posso estar sendo precipitado, disso eu sei bem, mas são pensamentos inevitáveis. Lembrei da parte de sua carta que diz que quer gritar no meu ouvido, fique a vontade, estou passando pelo mesmo com a única diferença que não sei em que ouvido gritar. Devo gritar ao mundo.
Mencionou que não estava conseguindo falar com Pedro. Ele estava em Londres e agora na Suíça a trabalho, mas daqui a três dias já deve estar em São Paulo novamente. Ele perguntou como foi nossa conversa, sabe o que disse? “como o planejado.” Não sei como será daqui para frente, mas sei onde queria estar agora. Queria poder estar na sua cama dormindo ao seu lado, ou na sua casa com a Maria nos mandando sair do sol. Queria voltar no tempo e sentir novamente a sensação de paz, liberdade e tranqüilidade que tínhamos, éramos felizes e ate nossos problemas eram divertidos, nada nos abalava e a vida era simplesmente bela. Só resta a saudade. Sinto falta do colégio e ate mesmo de você reclamando das meninas que ficava te seguindo. Sinto falta de dormi na aula e você me assustar e mais do que tudo sinto falta do “te amo” que ouvi de sua boca na minha festa de aniversário de 18 anos. Foi um momento único e duvido que viverei algo parecido novamente, nunca me senti tão amado e feliz, minha única vontade era dar gargalhadas de alegria, mas tudo o que consegui foi soltar lagrimas, lembra?
Na carta você também me faz um pedido,eu o nego. Caso eu te veja na rua irei gritar ate você se virar e eu sentir você nos braças. Nesse dia pode me bater, me abraçar ou gritar no meu ouvido, acho que mereço todos. Quanto ao pássaro branco na janela eu realmente não me lembro, e sim, quase tudo o que disse naquela noite foi ensaiado, não conseguiria de outra maneira. Não sei se devo pedir perdão e não aceito o seu adeus, sabe que não é o fim, nunca teremos um fim.
Por fim só peço que me ame, independente da forma, preciso do seu amor e lealdade, preciso do saber que independente de tudo o que possa ocorrer entre nós sempre terei o amigo que conheci no colégio e me levou para andar de ônibus. As folhas estão acabando e os meninos me esperam para mais uma noite. Minha vodka acabou e acho que não tenho mais nada a dizer no momento.

Eternamente seu, com amor,

Luca Beguelli

PS: espero óculos novos.

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